Pensar a cidade VII; O corpo da cidade, parte II


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Ao pensar em que “poder”, fosse ele real ou imaginário, fez com que um centro de consumo, lazer e serviço como São Paulo, relativamente parasse, levou-me a refletir em outros “poderes”. Pensei naqueles “poderes” diretos ou indiretos, institucionalmente inseridos no corpo da cidade. E que historicamente foram constituídos como forças organizativas e representativas delegadas pela sociedade. A mesma sociedade que às pressas corria para seus abrigos. Pensei precisamente nos “poderes” cujo pensamento e ação deveriam estar, desde suas tarefas iniciais de abordagem até os resultados finais de condenação ou absolvição, pela própria fundamentação filosófica de sua existência, comprometido com a requalificação e inserção do indivíduo ou grupo ao corpo da cidade. Pensei também nos “poderes” do corpo social que exclui e não abre espaço de ressocialização. Pensei no “poder” institucional de repressão ao crime. Limitado. E que não dava conta de um território imenso. Um território que potencialmente, sem aviso prévio, poderia ser alvo de alguma ação criminosa. Um “poder” que foi lamentavelmente vítima de ações surpresas, juntamente com outros cidadãos. Pensei no desabafo lamentoso do governador do Estado ao ponto de irritar-se com madames de classe alta que queriam organizar passeatas em favor da segurança de seus corpos, das suas idas e vindas a serviços de lazer e consumo. O corpo silencioso da cidade me fez pensar. Senti como nunca, parte desde corpo. Quer queiramos ou não, a cidade é e será o palco cada vez mais dramático, o painel explícito dos grandes conflitos da sociedade. A cidade é um organismo vivo, um corpo dinâmico. É um conjunto associativo e dissociativo, conflitivo e complexo entre os diversos espaços construídos e as formas de organização, utilização e reutilização da sociedade. E bom lembrarmos: Franca como qualquer outra cidade brasileira estará inserida nesses processos. Pensar na solução desses conflitos, que não devem ser vistos apenas como questões de violência e ação organizada de facções criminosas, isoladas do contexto de uma reflexão e ação mais ampla sem abranger, também, questões pertinentes à qualificação das cidades, é considerar os conflitos do corpo social como uma realidade virtual, uma existência ideal, sem inserção temporal e espacial e sem identidade geográfica. MARCELO PINI PRESTES é arquiteto, arqueólogo, pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) e membro do Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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