Eduardo Simões


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<p>A maioria das pessoas, após 29 anos de trabalho, começa a pensar em aposentadoria. Mas, com o pediatra Eduardo Simões, 55, é diferente. Ele cumpre um trabalho diário de 11 horas, entre o consultório particular, rede pública de saúde e plantões nos hospitais. Entre o atendimento a recém-nascidos e partos, Eduardo Simões recebeu a reportagem em seu quarto de descanso, na Santa Casa de Franca. No local, uma pequena cama, um armário antigo, geladeira, TV e videocassete. “Não é luxuoso, mas dá um mínimo de conforto. </p> <p>E tudo foi comprado pelos médicos”. Simões já teve uma passagem de quatro anos pela Coordenadoria da Secretaria da Saúde em Franca, entre 1997 e 2000, da qual surgiram projetos importantes, como o Mãe Canguru, e a criação do núcleo de atendimento a crianças de alto risco, ainda em atividade na UBS (Unidade Básica de Saúde) da Estação. Ele também fala, nesta Entrevista de Domingo, sobre sua maior paixão, a filha Ana Luiza, falecida em 2004, que hoje teria 20 anos. O médico relaciona a experiência pessoal com situações corriqueiras na vida de muitos pais de seus pacientes e diz que o sofrimento serviu para torná-lo um ser humano melhor.</p> <p><strong>Comércio da Franca - Por que a medicina?<br />Eduardo Simões</strong> - Foi uma decisão de adolescente. Eu tinha vontade de ajudar pessoas e a medicina pode proporcionar isso. Trabalho com amor, alegria e honestidade, pois ser médico é a realização de um sonho.<br /> <br /><strong>Comércio - E a pediatria?<br />Simões</strong> - A gente pode ajudar em vários tipos de idade e problemas. Você atende desde a criança saudável ao menino que chega afogado a um PS. Acho que é a área com maior poder de atuação, pois atendemos desde recém-nascidos até adolescentes com 18, 20 anos.<br /> <br /><strong>Comércio - Até 20 anos?<br />Simões</strong> - Sim, embora eles fiquem meio acanhados de estar ao lado de um bebê mamando ou chorando (risos), acabam passando conosco, pois temos seu prontuário desde o nascimento e sabemos de todo seu histórico. Na rede pública, o atendimento se limita aos 12 anos.<br /> <br /><strong>Comércio - O médico sofre com seus pacientes?<br />Simões</strong> - O médico convive com alegria, tristeza, vida e morte ao mesmo tempo. O importante é sempre a consciência de ter feito o melhor possível. Não saberia enumerar as situações, mas todo médico passa por isso.<br /> <br /><strong>Comércio - É difícil desenganar um paciente?<br />Simões</strong> - Nunca podemos tirar a esperança de alguém. Nós (médicos) não somos Deus para ter a última palavra. Temos a obrigação de fazer todo o possível e um pouco mais. Estender o cuidado com o paciente aos familiares. Faz parte do ser de cada médico.<br /> <br /><strong>Comércio - É possível conciliar fé e medicina?<br />Simões</strong> - Certamente. Todos têm sua religiosidade. Por mais que a situação seja difícil, que estatisticamente o paciente não tenha mais chances, mantemos a esperança. Antes de qualquer plantão, ou parto, faço minhas orações. Podemos até salvar vidas, sim, mas não estamos sozinhos nisso.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor já presenciou algum milagre?<br />Simões</strong> - Ao longo dos anos, já vi muita coisa. Pacientes do ponto de vista clínico desenganados de repente se recuperam. Há muita coisa entre o céu e a terra que o ser humano desconhece, tenho certeza disso. Milagres existem sim.<br />Mas a medicina existe pela vontade de Deus. Faça suas orações, mas não deixe de tomar o remedinho que o médico passa.<br /> <br /><strong>Comércio - Em seus quatro anos como coordenador municipal de Saúde, entre 1997 e 2000, o senhor implementou vários projetos na área. Fale dos mais importantes.<br />Simões</strong> - Recebi o convite de Gilmar Dominici e do ex-secretário de Saúde, Lavínio Camarim. Era um grupo comprometido em melhorar as coisas. Principalmente para gestantes e crianças de alto risco, em um trabalho que funciona até hoje. Fizemos um programa de atenção à criança desnutrida, uma grande campanha de acidentes domésticos que durou mais de um ano e deu resultados. Na Santa Casa, fizemos a Pasta do Bebê, que foi o primeiro passo para o Projeto Mãe Canguru e, claro, a implantação do banco de leite da Santa Casa.<br /> <br /><strong>Comércio - O que é o Mãe Canguru? Qual sua importância?<br />Simões</strong> - Visa principalmente à proximidade entre mãe e filho. Logo que o bebê nasce, vai para o colo da mãe, que se torna uma incubadora natural. Incentiva a amamentação e traz diversos benefícios. Hoje, há várias pessoas trabalhando para que a Santa Casa se torne ‘Hospital Amigo da Criança’, que seria uma espécie de selo de qualidade, um ISO 9002, e o primeiro passinho para isso foi a implementação desse projeto. Ajudou a abrir as portas ao hospital e vai beneficiar muitas pessoas.<br /> <br /><strong>Comércio - Como o senhor vê a atuação de Onofre Trajano à frente da Santa Casa?<br />Simões</strong> - Uma grande pessoa. Deixou muitos afazeres profissionais pela causa do hospital, totalmente de forma voluntária. Só tenho a agradecer o que ele faz no comando da Santa Casa, principalmente porque beneficia muitas pessoas carentes.<br /> <br /><strong>Comércio - Como foi para o senhor conviver com a doença de Ana Luiza (falecida em 2004)? É mais difícil para um médico passar pelo mesmo problema que muitos dos pais de pacientes seus?<br />Simões</strong> - É muito emocionante falar sobre ela. Ana Luiza (pausa). Ela foi e é um anjo em nossa vida. Quando se descobre que tem um filho excepcional, no início é um grande choque. Mas, com o tempo, a gente vai assimilando, aprendendo e entendendo o que a vida quer nos mostrar. Hoje, me sinto conformado, pois tenho certeza de que todo sofrimento pelo qual ela passou acabou. Foram 19 anos que passaram muito rápido...(nova pausa).<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor conseguia separar o pai do médico?<br />Simões</strong> - Embora não tenha como deixar de ser pai, eu sabia de tudo que acontecia com ela. Até por isso, conversava constantemente com amigos médicos para que pudesse amenizar seu sofrimento, para que ela fosse logo para casa. Foram momentos muito fortes...(pausa. Eduardo Simões toma um fôlego e enxuga os olhos antes de continuar a entrevista). Nem precisa dizer como estou emocionado...<br /> <br /><strong>Comércio - Qual a enfermidade da Ana Luiza?<br />Simões</strong> - Ela nasceu com uma má-formação neurológica, que foi se complicando naturalmente ao longo dos anos, até que ela não conseguisse mais respirar sozinha e precisasse de aparelhos. Com o apoio da Unimed, conseguimos montar uma UTI em casa e foi uma grande luta. Várias vezes ela foi desenganada. Um desses milagres que falei agora há pouco pode ser bem exemplificado pela minha filha. Até que chegou o momento. Ela faleceu...(pausa) apesar de todo o esforço de médicos e enfermeiras... Mas há um momento em que não tem mais jeito. Os anos passaram rápido e hoje resta uma doce saudade.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor, após 28 anos de medicina, como qualquer outro trabalhador, já pensa em se aposentar?<br />Simões</strong> - Só vou parar quando Deus disser: chegou a tua hora. Enquanto eu tiver condição física, lucidez e disposição, que tenho muita, não pararei. É meu melhor momento como médico. Hoje sou mais tranqüilo, maduro, com uma visão mais ampla de qualquer dificuldade, e posso ajudar muito as pessoas. O profissional médico não tem que ‘pendurar a chuteira’ tão cedo. Mas é fundamental a gente se manter atualizado, por meio de palestras, seminários e internet. Além disso, há um momento na vida do médico em que os filhos crescem, vão para a faculdade e as despesas são maiores (risos). Não dá para parar e viver de nossa triste aposentadoria do INSS.<br /> <br /><strong>Comércio - Qual sua rotina diária de trabalho?<br />Simões</strong> - Em média, são 11 horas todos os dias. Hoje mesmo, parei em meu consultório às 18h30 e iniciei um plantão de 24 horas na Santa Casa. Nosso trabalho é muito gratificante e isso é a mola mestra para que possamos continuar exercendo nosso trabalho, mesmo com duas ou três horinhas de sono apenas. Às vezes, somos chamados para uma emergência no meio da noite, momentos antes de uma festa, o que acontece muito (risos), mas são sempre importantes os momentos de lazer, principalmente com os familiares, para que possamos ‘recarregar as baterias’ e estar prontos para começar tudo de novo no dia seguinte.</p>

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