O Mar


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Quando vi o mar me encantei, e devagar me aproximei, pisei descalço a areia da praia e fiquei paralisado, olhando o vaivém das ondas, maravilhado. Cheguei mais perto e o mar veio saudar-me gentil, reconhecendo um marinheiro de primeira viagem. Naquele instante senti-me importante ante a boa acolhida do gigante, que fez as ondas fortes desmancharem-se, escorrer sobre a areia feito um tapete borbulhante e molhar-me os pés, como a fazer-lhes carícias e a dizer-me: “bem-vindo tu és”. Senti a vida parar e meu olhar perdeu-se naquela imensidão azul. Vi velas distantes, pequeninas. Na paz do momento veio à mente a canção: “As velas do Mucuripe vão sair para pescar/ vou levar as minhas mágoas pras águas fundas do mar/ hoje à noite namorar, sem ter medo da saudade e sem vontade de casar...” (Fagner/Belchior). Quando vi o mar, montanhas a ladear, barcos a velejar, gaivotas a voar, a brisa refrescante, aquelas águas que, parece, vão dar no infinito, dei-me conta de quanto o mundo é ainda mais bonito. Então fiquei a contemplar o oceano, extasiado. Observei o azul do céu e o azul do mar no horizonte se encontrar. Isso foi duas há décadas. Estávamos eu e a Sônia, recém-casados, jovens e apaixonados; paixão um pelo outro, paixão pela vida. Era segunda-feira, fim de setembro, baixa temporada, bem me lembro. A praia estava um deserto. Caminhávamos juntos à beira-mar, e a água vinha perto, mostrando amizade, desejando-nos felicidade. Às vezes íamos mar adentro e divertíamo-nos com as ondas a empurrar-nos de volta. Doce deleite na água salgada. A propósito, por que a água do mar é salgada? Não sabe? Porque tem muito bacalhau, seu bobo! Falando no mar, com sua beleza, tentando imaginar tudo que há nas suas profundezas, vem-me à mente Zé Ramalho com suas letras instigantes, dentre as quais Beira-mar: “Eu entendo a noite como um oceano que banha de sombras o mundo de sol/ aurora que luta por um arrebol de cores vibrantes e ar soberano/ um olho que mira nunca o engano durante o instante que vou contemplar/ além muito além de onde quero chegar, caindo a noite me lanço no mundo/ além do limite do vale profundo que sempre começa na beira do mar.../ ói por dentro das águas há quadros de sonhos e coisas que sonham o mundo dos vivos/ há peixes milagrosos, insetos nocivos, paisagens abertas, desertos medonhos/ léguas cansativas, caminhos tristonhos que fazem o homem se desenganar/ há peixes que lutam para se salvar daqueles que caçam no mar revoltoso/ e outros que devoram com gênio assombroso as vidas que caem na beira do mar.../ e até que a morte eu sinta chegando prossigo cantando, beijando o espaço/ além do cabelo que desembaraço, invoco as águas a vir inundando/ pessoas e coisas que vão arrastando do meu pensamento já podem lavar/ no peixe de asas eu quero voar, sair do oceano de tez poluída/ cantar no galope fechando a ferida que só cicatriza na beira do mar...”. Em certa ocasião fomos à praia de Maranduba, e a Carina, nossa caçulinha, ainda não conhecia o mar. Nos dias que antecederam a viagem ela não sossegava. Arrumava a tralha: baldinho, regadorzinho, pazinha; ficava inquieta; não via a hora de lá chegar. Dizíamos: Carina, vamos te apresentar ao mar. Depois de uma viagem atribulada, chegou o esperado momento, e ela viu-se à beira-mar. Então dissemos: “mar, esta é a Carina; ela estava louca pra te conhecer”. Ele respondeu com um chuá e molhou os pezinhos dela, amigável, a dizer: “eu também, muito prazer”. E ela, deslumbrada, ficou a tarde inteira brincando na areia molhada. Na hora de recolher as coisas para ir para a pousada, o mar disse baixinho a ela: “volte amanhã cedinho, que tenho um presentinho pra te dar”. No outro dia havia muitas conchinhas para ela catar, tantas que encheram o baldinho. Nos dias seguintes mais diversão. Ela passava horas a furar buracos na areia, esculpir estátuas, desmanchar. De vez em quando pegava o baldinho, ia até a água e voltava com ele cheio. Às vezes pedia para ir com ela nas ondas. Eu fujo do sol como o diabo da cruz. Vejo as pessoas estiradas na areia, sob o calor do meio-dia, querendo pegar uma cor, e não sei como suportam. Só de ver sinto o ardor. Tenho amigos que bebem cerveja em dobro na praia. Dizem que a brisa do mar não deixa embriagar. Eu na beira-mar não bebo nada de álcool; fico inebriado só com a paisagem, a brisa, as pessoas a passar, as crianças a brincar, a cuca fresca sob o boné e o guarda-sol, a devanear. Gosto de sentir o tempo passar. Nada de jornal do dia, “laptop”, internet, nada. De repente chega a hora do sol poente, alguns raios passando nas frestas dos morros a dourar as águas, formando aquela imagem que encanta a gente, e então saio do refúgio e vou caminhar descalço, pertinho das águas, despreocupadamente. Como diz Gilberto Gil, “Beira do mar, lugar comum, começo do caminhar pra beira de outro lugar/ Beira do mar, todo mar é um começo do caminhar pra dentro do fundo azul...”. Mar doce mar! PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de justiça de Piracicaba

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