A Sereníssima República


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Tive, recentemente, o prazer de reler contos do mestre Machado de Assis. Ocasião em que fiquei deslumbrado com a atualidade de alguns deles, como “O Segredo do Bonzo” e “A Sereníssima República”. O primeiro muito me lembra a atuação de alguns políticos atuais e seus “magos marqueteiros”, enquanto o segundo, mostra-nos, com riqueza de detalhes, o cotidiano de uma casa de leis. Contentarei-me, neste momento, a comentar apenas este último, uma vez que o legislativo local tem passado por uma situação demasiada semelhante. O conto, subtitulado “Conferência do Cônego Vargas”, é narrado em primeira pessoa, pelo próprio, que, por sua vez, é um “naturalista”, relatando a seus pares os resultados de suas últimas experiências com uma comunidade de aranhas. Conta-nos o cônego, que após muito esforço e empenho, conseguiu decifrar a linguagem aracnídea e induzi-las a formar uma república democrática. É interessantíssimo acompanhar a evolução eleitoral desta sereníssima república, sem querer abusar dos superlativos. Foi tecido um saco, justamente para esta ocasião, onde eram colocadas bolas com os nomes dos candidatos ao cargo em questão, a fim de se realizar um sorteio. A cada fraude, o saco perdia ou ganhava dimensão, de sorte que era constantemente desfeito e refeito. Quando se suspeitava da omissão de uma bola, era imediatamente “tecida” uma lei que obrigasse a confecção de um saco maior, a fim de não excluir ninguém. Quando o caso era o contrário, uma nova lei também era “tecida” visando diminuir o tamanho do mesmo. Em Franca também tem sido assim, me chamou a atenção no início deste ano a notícia de que a Câmara de Vereadores de nosso município voltava atrás em uma lei que regulava a distância mínima para a construção de novos postos de gasolina. Motivo: A vinda de uma unidade da rede Carrefour. Recentemente, o bloco “governista” votou contra uma proposta de lei que eles mesmos haviam criado. Motivo: Repercussão negativa na imprensa. E por aí vai! De sorte que, também por aqui, nossa legislação é constantemente construída e desconstruída ao sabor das conveniências. Para encerrar, nada mais esclarecedor do que as palavras do próprio mestre Machado de Assis, que assim conclui o seu conto: “Encarregado de notificar a última resolução legislativa às dez damas incumbidas de urdir o saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fábula de Penélope, que fazia e desfazia a famosa teia, à espera do esposo Ulisses. ‘Vós sois a Penélope da nossa república, disse ele ao terminar; tendes a mesma castidade, paciência e talentos. Refazei o saco, amigas minhas, refazei o saco, até que Ulisses, cansado de dar às pernas, venha tomar entre nós o lugar que lhe cabe. Ulisses é a Sapiência’”. CARLOS AMORIM é historiador formado pela Unesp, professor, escritor e presidente da Associação Centro Cultural Casa do Estudantes e autor de A Igreja do Diabo (Editora RGE, 2004)

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