No Brasil, segundo o IBGE, os 10% mais ricos ganham nada menos que 16,9 vezes o rendimento dos 40% mais pobres. Repetindo: No Brasil, segundo o IBGE, os 10% mais ricos ganham nada menos que 16,9 vezes o rendimento dos 40% mais pobres. E a concentração de riqueza na forma de terra não é diferente da concentração da riqueza em “cash”. É assustador como não nos chocamos tanto com esses dados. É assustadora a maneira como nos acostumamos a essas estatísticas. É assustadora a maneira como a desigualdade se tornou algo tão “normal”.
Os brancos contemporâneos do escravismo, mesmo os que não possuíam negros, achavam “normal” uma pessoa ser dona de outras. Achavam normais os espancamentos e trabalhos forçados aos quais os negros eram submetidos. Isso me dá esperança de que um dia, quando tivermos superado nossas contradições, nossos descendentes considerem tão absurdo a concentração de terra de hoje como nós consideramos absurdas as truculências da escravidão. O absurdo de ontem não é mais absurdo que o absurdo de hoje. A diferença é que estamos acostumados com o absurdo hodierno.
No século XIX, os que lutavam pela abolição e arrebentavam cadeados de senzalas e libertavam escravos eram chamados de bandidos como hoje ocorre com aqueles que combatem nossas mazelas de maneira mais ativa. Algumas ações dos cativos e simpatizantes acabaram por dificultar a vitória final contra a escravidão. Assassinatos de senhores e grandes rebeliões violentas, como a Revolta dos Malés (Salvador, janeiro de 1835), fizeram com que a curto prazo a situação dos negros piorasse. Na verdade, muitos dos senhores de escravos adoravam quando rebeliões passavam dos limites (desde que ocorressem na propriedade dos outros), pois assim se legitimavam a truculência e os abusos.
Hoje existe uma luta pela superação de determinados abusos. Os que estão por cima evocam o “direito à propriedade” (mesmo evocado pelos donos dos escravos). Tal argumento seria aceitável se não existissem 54 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da miséria (menos de meio salário mínimo por mês), enquanto poucos possuem fazendas do tamanho da Bélgica.
Aqueles para quem o mundo (o seu mundo) está bom argumentam de maneira arrogante: “Tenho o que tenho porque trabalhei muito na vida para isso. Esses sem terra são pobres porque são um bando de vagabundos”. Patética balela! Se a riqueza fosse diretamente proporcional ao trabalho, a lista dos maiores milionários do mundo da revista Forbes estaria cheia de cortadores de cana.
São esses homens que se consideram grandiosos pelo simples fato de terem patrimônios grandiosos que mais se beneficiaram da depredação do Congresso Nacional por parte de miseráveis liderados por boçais incompetentes. O ataque à Casa da democracia é um retrocesso na luta pela superação de nossos absurdos. Os líderes de movimentos sociais deveriam saber que a democracia política é o mais importante instrumento para a conquista da democracia social. O século XX já nos provou, em vários países, que não vale a pena sacrificar a liberdade em nome da justiça, pois ao fim, acaba-se criando uma realidade sem uma coisa nem outra. A primeira deve ser caminho e não empecilho à outra.
Quem mais ganhou com a batalha do dia 6 de junho foram os coronéis que se dizem indignados, mas que por dentro explodem de felicidade por terem visto o povo oprimido se autodestruindo. A cada vidraça que os famintos quebravam diante das câmeras, quebravam também uma parte do apoio do qual gozavam diante da opinião pública (leia-se classe média), a cada computador destruído enfraquecia-se mais a imagem do Congresso enquanto instituição, que poderia ser (desde que moralizado) palco para conquistas civilizadas e democráticas rumo a uma realidade mais justa.
O presidente da Câmara, o comunista Aldo Rebelo, se indignou diante da situação que tentava conter. Irado com Bruno Maranhão (líder do MLST) e suando muito gritou com o ex-camarada: “Te conheço há 30 anos. Mas não aceito esse tipo de atitude. Você está autuado”. Aldo estava indignado. Não pelas portas de vidro quebradas, mas pelas portas ao diálogo que a estupidez de Maranhão o obrigaria a fechar.
Os danos materiais de alguns milhares de reais, não são nada se comparados aos milhões de reais que foram roubados do povo nos governos FHC e Lula. O grande prejuízo é um bem maior que os terminais de informática. A Democracia foi atacada.
Quanto aos sem-terra serem “vagabundos”, como papagaia-se atualmente, é preciso separar o jogo do trigo. Existem sim oportunistas e líderes imbecis em alguns movimentos de trabalhadores rurais despossuídos. Mas, a generalização é uma atitude de preconceito de classe, que deveria ser punida como ocorre com os crimes de racismo. Um pai não peregrina com suas crianças e mulher, enfrentando frio, jagunços e polícia em um acampamento, simplesmente para brincar de escoteiro. Esses severinos, em sua esmagadora maioria, fogem da fome, que ameaça suas famílias e ceifa a vida de uma criança a cada sete segundos.
A justiça os julga rápido. Se cometem um crime, no mesmo dia eles são presos (ao contrário do que ocorre com magnatas e parlamentares). Vejamos, porém, como a História os julgará. No caso dos abolicionistas e da resistência negra, a Justiça da época e a História lhes deram veredictos diferentes. O mesmo pode ocorrer com os flagelados de hoje.
LEANDRO CRUZ é professor e historiador formado pela Unesp e editor-assistente do Caderno B do Comércio da Franca
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