Parceria com o mundo


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<p>Jayme Martins, 76, é diretor de Cooperação Internacional da prefeitura de Jundiaí e diretor de comunicação da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China. Além disso, possui um rico e invejável currículo como jornalista: ex-chefe de reportagem do jornal Última Hora no início dos anos 60 aos 30 anos de idade, foi para a China e por lá ficou 20 anos, ajudou a formar intérpretes de português para o governo chinês. </p> <p><br />Sem conhecimento dos chineses, Martins fez matérias como correspondente de diversos órgãos de imprensa do Brasil. Pelo telefone, transmitiu o massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, quando 1,5 milhão de pessoas saíram às ruas de Pequim por reformas democráticas. Após 45 dias, houve centenas de mortos e milhares de feridos pelo exército local. </p> <p><br />Mas partir para a China, em pleno auge da Guerra Fria, não foi fácil. Ao retornar ao Brasil para renovar o passaporte nos dias seguintes ao golpe militar, ficou preso por oito meses. Durante os “anos de chumbo”, não pôde pisar em solo brasileiro. Com a anistia, Martins e a família, enfim, puderam voltar. Mesmo assim, os chineses não o esquecem (até hoje, chamam o brasileiro de Lao Ma, que significa “velho cavalo” em chinês). </p> <p><br />Ele esteve em Franca no final de maio, quando ministrou uma palestra sobre cooperação internacional e governos locais promovida pela Orbe, empresa júnior dos alunos do curso de Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista). E contou sua história.</p> <p><strong>Comércio da Franca</strong> <strong>- Como surgiu a idéia de ir para a China?<br />Jayme Martins</strong>- Eu estava no jornal Última Hora, em 1961, quando uma delegação de jornalistas e radialistas chineses foi visitar o jornal. Eu fui escalado para ciceronear a delegação na visita a vários departamentos do jornal e percebi que o intérprete falava espanhol e não entendia patavina de português. Como sou filho de espanhóis, passei a falar em espanhol com a delegação chinesa. Foi um alívio não só para o intérprete, como também para a própria delegação. No final da visita, o chefe da delegação, que era o vice-ministro de Rádio, Televisão e Cinema da China, me perguntou: ‘O senhor não aceitaria um convite para trabalhar na China?’ E eu respondi: ‘Mas para fazer o quê?’ Ele disse: ‘Para formar intérpretes de português que nós não temos’. Se bem que eu tivesse apenas o segundo ano de ginásio, com a minha vivência de jornalista na capital e em alguns grandes jornais, me atrevi a assumir esse compromisso. E em fins de maio eu embarquei para a China. Eu tinha uma namorada aqui, a Angelina, e fiquei noivo. Ela me esperaria dois anos. Mas os chineses, ao se inteirarem da minha situação de noivo a distância, resolveram convidar também a Angelina para lecionar lá. Fizemos a festa de casamento em Pequim.<br /> <br /><strong>Comércio</strong> <strong>- Qual a importância do relacionamento entre os governos locais, como as prefeituras, e os Organismos Internacionais?<br />Jayme</strong> - Tive a oportunidade de falar sobre a experiência da prefeitura de Jundiaí, especialmente no contato com as 43 câmaras de comércio de outros países e com os 64 consulados estrangeiros situados na capital paulista. Os contatos entre eles, o prefeito, e seus secretários permite o intercâmbio de experiências nas áreas de educação, finanças, esportes. Fazemos isso também em parceria com o Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), onde essas delegações são recebidas por empresários que tratam de negócios de importação e exportação. As parcerias envolvem também as escolas superiores de Jundiaí, interessadas em fazer o intercâmbio de professores e estudantes com universidades de outros países. Essa experiência pode ser muito aproveitada por Franca, que deve ativar suas relações com o Mundo, tem que fazer parte do mapa mundi.<br /> <br /><strong>Comércio - Por que essa experiência em Jundiaí?<br />Jayme -</strong> Tudo aconteceu por iniciativa do prefeito (Ary Fossen, do PSDB), quando tomou posse em janeiro de 2005. Ele soube que (eu) estava na cidade, me chamou ao gabinete e disse que queria colocar Jundiaí no mapa mundi. Com a lista telefônica nas mãos, liguei para as câmaras de comércio internacional e consulados sediados em São Paulo. Em pouco tempo, já comecei a receber livros, revistas e outras publicações sobre os países. Dessas conversas saiu um convênio entre os oito centros universitários de Jundiaí e as 38 universidades australianas, que havia sido proposto pelo cônsul-geral da Austrália. Freqüentemente, cônsules e empresários estrangeiros vão até Jundiaí nos procurar atrás do que nós temos a oferecer. Não há segredos. É só ir atrás. Franca pode, por exemplo, celebrar parcerias com empresas italianas e do mundo árabe, já que a cidade possui muitos representantes de ambas as colônias. E os países árabes já são, em conjunto, o quarto maior parceiro comercial do Brasil.<br /> <br /><strong>Comércio - O que a Prefeitura de Franca poderia fazer para repetir o que acontece em Jundiaí?<br />Jayme -</strong> A presença de um representante da prefeitura na minha palestra já é um avanço. Se houver interesse, estaremos à disposição para fornecer os contatos.<br /> <br /><strong>Comércio - Apesar do forte impacto dos produtos chineses no Brasil, de que forma a parceria com a China pode trazer benefícios para o País? E como o empresariado brasileiro pode se defender dos chineses?<br />Jayme -</strong> Essa questão da concorrência não é apenas internacional. É também um problema do mercado interno. As empresas lidam com concorrentes que conseguiram reduzir o custo de produção do calçado e de outros produtos fora e dentro do Brasil. A competitividade é o problema chave. A China tem conseguido isso, não por ser uma indústria de mão-de-obra barata, mas principalmente por utilizar uma tecnologia que reduz em grande parte o custo de produção. A indústria brasileira deve correr atrás dessa tecnologia, deve investir e fazer parcerias com pesquisadores e universidades. Mas muitos outros problemas podem ser resolvidos através de entendimentos, de conversações, como já aconteceu, por exemplo com a indústria têxtil, em que não foi necessário adotar as medidas de salvaguarda. A indústria de calçados brasileira e as autoridades devem lutar contra o que há de ilegal, de irregular e de desonesto no que diz respeito à concorrência chinesa, como o subfaturamento, o contrabando. Pressão e negociação, como fez a indústria têxtil.<br /> <br /><strong>Comércio - Mas há questões de mão-de-obra, com denúncias de semi-escravidão e desrespeito aos direitos humanos feitas por organismos internacionais. É possível pressionar o governo chinês a acabar com isso?<br />Jayme -</strong> Não, essa questão de semi-escravidão é uma lenda. Não tem fundamento. Os trabalhadores chineses fazem, sim, muitas horas extras, mas são pagas. Isso tem contribuído inclusive para o aumento do poder aquisitivo e melhoria do padrão de vida de povo chinês.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor já esteve em uma fábrica de calçados na China?<br />Jayme -</strong> Nunca estive em uma indústria moderna porque saí de lá em 1989 e não voltei mais. Mas minha experiência com fábricas de calçados foi engraçada. Em 1963, fui convidado para visitar um presídio em Pequim. E lá havia uma fábrica de calçados de pano com solas de plástico.<br /> <br /><strong>Comércio - O senhor acredita que as reformas econômicas poderão levar a mudanças na política chinesa?<br />Jayme -</strong> O governo chinês já passa por transformações. O Partido Comunista Chinês não é mais o mesmo de 30 anos atrás. Além disso, é preciso uma compreensão muito especial sobre o que está acontecendo por lá. O governo está corrigindo o passo maior do que a perna dado nas décadas anteriores, sob o comando de Mao-Tsé-Tung. E a culpa não foi pessoal dele, mas do grupo que comandava o Partido Comunista na época. Você não pode passar, por exemplo, do feudalismo para o capitalismo, e daí para o socialismo ou comunismo, se não houver preparo de todos para esta transformação. Eles foram para o comunismo quando estavam no estágio pré-capitalista. Durante os primeiros anos de Mao-Tsé-Tung, não havia socialismo ou comunismo, mas sim um capitalismo de Estado, o que é bem diferente. Agora, a China está corrigindo este erro histórico permitindo o desenvolvimento do capitalismo e, mesmo com o regime político fechado, tem a participação da iniciativa privada nacional e até do capital estrangeiro. </p>

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