Pensar a Cidade VI - O corpo da cidade


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Em outro artigo comparei os espaços urbanos como um produto que consumimos e que muitas vezes, nem temos consciência desta relação de consumo ou de sua qualidade. Acrescento a esta comparação de produto urbano, a cidade como um corpo. Nosso corpo é a expressão primeira de nossa historicidade. Estamos na história e na vida através da nossa corporeidade, que nos dá o reconhecimento de nossa identidade em relação a um outro ou outros. Mas, vivemos o fenômeno da corporeidade sem ter consciência nítida de seus limites e possibilidades. Até que, um acidente, uma doença, ou a tremenda chaga social, da fome e da exclusão ou da violência venham deixar suas marcas em nós, em nosso corpo ou nos dos nossos próximos. A cidade também é um corpo. Um corpo constituído de espaços diversos, de circulações, caminhos, múltiplas funções, organizações que deveriam dinamizar e qualificar toda a vida desse corpo. Poderíamos dizer, assim como a nossa corporeidade nos apresenta como ser na história. Ser no mundo. A cidade também visibiliza a sociedade que a produz no tempo e no espaço. E da mesma forma que vivenciamos nosso corpo, vivenciamos o corpo da cidade com certas doses de alienação. Possivelmente, os habitantes das cidades, especialmente das cidades paulistas, tiveram uma experiência, que os deixaram de certa forma atônitos: descobriu-se que existe um espaço, um corpo urbano, além de nosso corpo pessoal. Esse corpo urbano pode ser alterado e totalmente desarticulado da vivência cotidiana normativa e de muitas maneiras afetar o nosso corpo pessoal. O corpo da cidade ficou exposto a uma situação de limite e reorganização. Durante um final de semana, uma tarde e uma noite, o corpo da cidade, acreditou-se que ficou sob outro controle. Instalou-se o controle do medo, do boato, de uma possível onda de violência gerida por um outro. E esse controle, virtual, se materializou em ações nas cidades: alguns bancos e delegacias metralhadas, ônibus queimados, rebeliões e muitas mortes. No entanto, apesar das ações pontuais, a sensação que habitou o corpo das pessoas era de que todo o corpo da cidade se apresentava como um lugar possível, um cenário a não ser ignorado. O corpo da cidade se tornava uma ameaça ao corpo do cidadão. Um outro que até então, apesar de sabermos de sua existência, ignorávamos que pudesse se fazer presente de uma forma tão próxima. Estrategicamente nos tirou de certa alienação de usufruidores da cidade. Nunca vi tanta gente tentando encontrar formas, caminhos, circulações, proteções possíveis. Buscando mapas, discutindo percursos, tentando lembrar nomes de ruas, formas mais adequadas de se protegerem no corpo urbano. Outros tantos, desesperados, se dando conta de engarrafamentos gigantescos e imóveis por motivações que não se sabia até onde era real ou fantasiosa. Vi os que perceberam a distância quilométrica, que numa situação de pânico, se tornava monstruosa, entre trabalho e a casa abrigo. Muitos abriram os olhos para o péssimo transporte coletivo e dos riscos que poderiam encontrar durante os trajetos: ataques, ruas com pouca ou sem iluminação, sem asfalto. Casas, bairros, que antes eram trajetos despercebidos e corriqueiros se tornaram ambientes ameaçadores, cuja máxima atenção seria pouca. Ainda havia os que, ao avistar todo o aparato de defesa nas ruas (lojas fechando, helicópteros sobrevoando, centros de consumos sendo esvaziados, ruas tornando-se desertas) deram-se conta que faziam parte de uma realidade mais ampla e complexa do que seus próprios problemas privados. A cidade foi vista, olhada. E a cidade ficou deserta. O corpo silente da cidade gritou sobre algumas realidades. MARCELO PINI PRESTES é arquiteto, arqueólogo, pesquisador da USP e membro do Conselho de Leitores do Comércio da Franca

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