Governo Lula e as eleições de 2006


| Tempo de leitura: 4 min
A perspectiva de esperanças do início do governo Lula não é a mesma que o finaliza. Por todos os fatos e desdobramentos, e apesar do bom desempenho da economia e de sua posição de liderança nas pesquisas, uma possível vitória nas próximas eleições talvez seja mais temerária do que a primeira. Por essa razão é importante fazer um balanço do governo, da crise e do cenário que marca a campanha eleitoral a partir de uma aproximação histórica e política. É um consenso básico entre os analistas a avaliação de que o governo Lula é parte constituinte do novo ciclo político que se abriu com o governo Collor e teve sua continuidade com FHC. Lula não alterou a reorientação mais geral que se estabeleceu desde então: da centralidade do papel do Estado no processo do desenvolvimento econômico para a liberalização quase que integral da dimensão econômica, isto é, a economia permaneceu liberada de quaisquer lógicas externas a ela. Essa identidade se explica em função das origens similares de PT e PSDB. Como afirma Luiz Werneck Vianna, “a linguagem comum dos dois grandes partidos que surgem em São Paulo a partir da redemocratização do País - o PT e o PSDB - é a da sociedade civil. Para o primeiro, dominada pela gramática do social, e pela do mercado, a do segundo”. Por essa razão, PT e PSDB sempre procuraram afirmar suas identidades na critica à história da modernização brasileira, cujo eixo de referência e valores se assentavam na idéia de “Nação, da precedência do público sobre o privado e de uma concepção do Estado como lugar da representação da comunidade nacional”. Essa identidade não era tão evidente a olhos desatentos. Mesmo porque o PT guardava dentro dele não apenas os seus setores mais radicalizados pelo revolucionarismo que esteve na sua formação como havia sido um dos seus maiores críticos ao governo FHC. Expressão do “liberalismo dos de baixo”, o PT fez o seu caminho não pelas torrentes do discurso ideológico, mas sim pela extraordinária sagacidade e se projetar como ganhador de eleições. A retórica e a política do custo/benefício orientou o caminho da conquista dos poderes da República até vitória. Na reta final da campanha de 2002, pragmatismo e senso de poder orientaram a decisão do PT pela continuidade da política macroeconômica do governo anterior. Estaria selada ai a aliança com os setores do grande capital, o que garantiria condições de governabilidade para o inicio do governo. Tais condições não seriam abaladas em momento nenhum, nem mesmo na crise que viria se abater sobre o governo . Por isso o comportamento da oposição foi dúbio e vacilante: não poderia contestar integralmente o governo Lula em função da identidade programática explícita. A opção do PT em governar a partir dessa “aliança surda” - que lhe garantia o apoio das elites econômicas - e da compra de parlamentares no Congresso - que lhe manteria a diferenciação operativa em relação ao PSDB, principalmente - não lhe pareceu um risco fatal em nenhum momento. Por essa razão, o governo Lula não é outra coisa senão o governo de um partido da ordem envolto num paradoxo sem fim. Mas é mais do que isso: é o governo de uma esquerda que vendeu sua alma e não pode olhar para trás. Em meio à crise do governo, um dos seus maiores intelectuais/dirigente, o atual Ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, havia afirmado que, naquele momento, “não via muita razão em alguém votar no PT”, tais eram as evidências de corrupção no até então maior partido de esquerda do ocidente. Na oportunidade, Genro chegou a defender uma “refundação do PT” e teria sido afastado da presidência interina do partido por essa postura. Pois bem, agora, à frente das pesquisas de intenção de votos e sem realizar o tal processo de refundação (o que foi feito não passou de um “ajuste burocrático”), o PT parece avançar rumo à estabilização da cultura política de estratégia racional para estabelecer alianças e apoios à reeleição de Lula, dentre eles o do luminar ex-ministro Delfim Netto (PMDB). Parece claro assim que Lula e o PT conseguiram emergir da crise, de forma mais racional e pragmática do que antes, mobilizando os sustentáculos que mantiveram o primeiro governo e mais o assistencialismo oficial. Quem sonhava ou sonha ainda com o “petismo” é bom que desperte. Em todo caso, se a afirmação de que o primeiro governo Lula foi o primeiro governo da esquerda na história do País já era algo questionável, o segundo certamente não será. ALBERTO AGGIO é historiador e professor livre-docente de História da América na Unesp/Franca

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários