O simples fato de abrir uma lata de sardinha sempre foi um desafio para a aposentada Maria José Furtado, que hoje, aos 72 anos, ainda não conseguiu vencê-lo. Ela é canhota e durante muito tempo precisou de ajuda para executar a tarefa. “Quando lançaram as latas com ganchinho para abrir a tampa foi uma glória para mim. Parei de amolar os outros.”
Num mundo em que as pessoas com facilidades em fazer tarefas com a mão esquerda são minoria (estima-se que 8% da população seja canhota), Maria José sempre precisou improvisar: abria as latas com a faca, cortava o tecido do avesso para ficar com o corte correto (usando uma tesoura normal, não consegue enxergar a chamada linha de corte), chegava adiantada aos compromissos da igreja para garantir uma carteira de braço invertido, além de ter enfrentado o radicalismo “dos antigos”. “A professora do primeiro ano amarrava minha mão esquerda para trás para eu ter de escrever com a direita. Minha mãe também batia no meu braço quando eu segurava os objetos com o lado que achava errado. Só que não teve jeito, nasci canhota.”
Hítalo Faria Rodrigues tem 9 anos. Mais de 60 anos o separam de Maria José, e hoje as proibições de usar certo lado do corpo são praticamente inexistentes, mas o tempo não minimizou as dificuldades. Tanto é que o garoto treinou os dois lados e, mesmo sem muita firmeza na mão direita, executa tarefas com ela também. “Abro a porta com as duas mãos, consigo beber água com a direita... Vejo na hora qual mão é mais fácil usar. Foi algo que aprendi para facilitar as coisas”, disse. Para escrever e comer, ele usa somente a esquerda.
Os pais dele são destros, mas o avô paterno era canhoto e Hítalo herdou essa característica. A mãe, Jaqueline da Silva Rodrigues, 27, auxiliar de escritório, conta que quando lhe entregava algum objeto na mão direita, ele logo passava para a esquerda. “Ele nasceu assim mesmo.”
TENTATIVAS
Ter ambientes adaptados para a minoria canhota não é uma realidade, mas existem empresas que lançaram objetos específicos para essa parcela da população. São fabricantes de materiais escolares (tesouras especiais, cadernos com espiral na parte superior no lugar da lateral), peças de computador (teclados com as teclas invertidas - o conjunto de números e sinais de adição fica do lado esquerdo - e mouses) e instrumentos musicais (violão, guitarra e contrabaixo).
Muitos desconhecem tais opções e encontrar os produtos em Franca não é tarefa fácil. A reportagem ligou para quatro livrarias e apenas uma oferecia objetos escolares para canhotos, mas somente sob encomenda e, dependendo do dia, o cliente precisa esperar semanas, porque o representante passa apenas uma vez por mês. Outras três lojas de informática foram consultadas e não vendem mouses ou teclados especiais. “A procura é muito pequena. Como são minoria, os canhotos acabam por adaptar os equipamentos ‘normais’”, disse Aparecida Catela, proprietária de um dos estabelecimentos consultados.
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