<p>A decisão definitiva só sai mesmo em duas semanas. Mas os planos de Mário Spaniol, presidente do curtume Couroquímica e da fábrica de calçados femininos Carmen Steffens, de retirar suas empresas da cidade, parecem firmes. O planejamento de transferência da atividade produtiva, segundo ele, está em fase de finalização. Só falta escolher a cidade. </p>
<p><br />Cidades de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais já se ofereceram para sediar as empresas. Isenções, benefícios e até prédios para as instalações são atrativos para “fisgar” as organizações de Mário Spaniol. <br />Não é por menos. Juntas, as duas empresas faturam alto e podem render boa receita adicional às cidades de pequeno e médio porte que se habilitaram (a pedido de Mário Spaniol, que alegou motivos de segurança, não publicaremos valores relativos a faturamento). Sem falar no número de empregos, cerca de dois mil novos postos para os próximos cinco anos, além dos já existentes, de acordo com projeções de crescimento dos negócios, segundo o empresário.<br />Percebe-se que não é bem isto que Mário Spaniol deseja de verdade. “É melhor um mau acordo que uma boa briga”, diz ele. O empresário ainda espera que o sindicato o convide para negociar legalmente o uso do banco de horas. </p>
<p>“Informalmente eu sei que existe, mas eu quero tudo às claras, na lei”. É este o entrave central que desencadeou a polêmica entre o sindicato dos trabalhadores e sua empresa e fez com que ele decidisse pela transferência das indústrias. </p>
<p><br />De acordo com Spaniol, o banco de horas tornará sua empresa mais eficiente, pois “pagar horas extras hoje em dia implica em repassar custos ao consumidor”, o que o tiraria do mercado. “Seria pior para todos, porque o empresário não pode manter uma empresa operando no vermelho”. O sindicato, segundo ele, não quer tocar no assunto. “Eles não querem conversar. Há cem cidades que sim”, disse. </p>
<p><strong>Comércio da Franca - Você está disposto a sair de Franca mesmo? Quando isso deve acontecer?<br />Mário Spaniol - </strong>Em duas semanas eu saio de Franca. Já decidi a retirada de 75% de minhas operações da cidade. Será gradativo, não paro tudo de uma vez, mas em um ano transfiro minha capacidade produtiva da Couroquímica para outra cidade e deixo apenas 25% das operações aqui. A Carmen (Steffens) sai. E posso ainda encerrar tudo aqui nos anos seguintes. Tenho muitas ofertas. No dia da publicação da matéria do Comércio, por exemplo, na qual eu avisava que sairia, todos os prefeitos da região me ligaram oferecendo inúmeras vantagens. Não me preocuparia com nada, nem com prédio. Alguns até já haviam se adiantado e pedido outras isenções a seus governadores, como no caso de cidades mineiras vizinhas.<br /> <br /><strong>Comércio - Já é uma decisão tomada? Vai sair?<br />Spaniol -</strong> Em duas semanas eu decido. Estou finalizando os planos e decidindo para onde, mas pelo que vejo será o caminho natural.<br /> <br /><strong>Comércio - Mas ainda há espaço para discussão?<br />Spaniol -</strong> Acho que o sindicato (dos Trabalhadores) não está preocupado com isso. Tentei conversar e eles não abrem espaço. Talvez o presidente já saiba onde realocar os empregos que serão perdidos com a saída das duas empresas de Franca (calçados Carmen Steffens e curtume Couroquímica).<br /> <br /><strong>Comércio - O que os funcionários acham?<br />Spaniol -</strong> Noventa por cento concorda com o banco de horas, só que há 10% que é massa de manobra. Os caras (sindicalistas) vêm aí e fazem uma bagunça danada, os caras (funcionários) ficam com medo. Eu não tenho medo de ninguém, não quero lesar ninguém. Eles têm o direito de falar o que eles pensam, democracia é isso. Agora, o sindicato tem que entender que daqui a pouco ele vai ser o sindicato do nada, por que no andar da carruagem, Franca em dez anos perdeu e perderá muita coisa. Ilusoriamente, pensou-se que de três anos para cá, o dólar melhorou e por dois anos se viveu em, uma “ilha da fantasia”. Isso acabou. O dólar novamente voltou para um patamar que, acredito, é o que permanecerá de agora para frente. O Brasil está vivendo uma outra realidade. E o empresário francano tem que buscar alternativas neste cenário. Melhorar o nível de clientes e a eficiência da empresa. Então, eu pergunto: eles querem ser sindicato do quê? Por que eles acham que o Brasil não importará sapato? E eu te digo: o sapato masculino chinês já está infernizando o País. As fábricas que têm os menores preços já estão perdendo terreno, pois o deles é mais competitivo. Empresas como Renner, Riachuello e C&A já importam calçados chineses. É hora de união, não de briga. Precisamos de soluções conjuntas. Esta briga é idiota.<br /> <br /><strong>Comércio - Existe possibilidade de diálogo antes da decisão final da saída?<br />Spaniol -</strong> Eu liguei cinco vezes para lá (para o Sindicato dos Trabalhadores) e sequer me atenderam. Mandaram-me um recado dizendo: “Não quero nem conversa”. Tudo bem. Não querem conversa, eu tenho cem (cidades de Estados diferentes) querendo. Eu não tenho dez, ou doze e se eu abrir a boca eu tenho quinhentas. Quem não quer uma empresa que em cinco anos pretende gerar dois mil empregos? Então, o cara deve estar com amnésia. Temos plano de expansão para os próximos anos e vamos fazer aqui ou na cidade que escolhermos, se não houver acordo.<br /> <br /><strong>Comércio - Uma mudança como esta exige altos investimentos, praticamente iniciar tudo da estaca zero, principalmente no trato com mão-de-obra especializada. Você não teme dificuldades?<br />Spaniol -</strong> Se haverá dificuldade? Sim, mas não me assusta. Quando eu abri esta unidade em Franca, me chamaram de louco. “Onde já se viu fazer feminino em Franca. Isso não funciona...” Esse louco se tornou número um do Brasil. Hoje, nós temos o prêmio de melhor franquia do País, depois de dez anos de gente me chamando de louco. Tive dois períodos de dificuldade na firma. O último deles foi em 1997, quando precisei até pedir concordata. Lutei, consegui reerguer tudo novamente e muita gente que estava ao meu lado permanece até hoje. Sair daqui e montar em outra cidade não me assusta. Não tenho medo de recomeçar. Formei minha mão-de-obra aqui em Franca e posso muito bem formar novos profissionais onde quer que eu vá. Se for preciso, produzirei calçado feminino no meio da selva amazônica.<br /><strong> <br />Comércio - Um eventual acordo para a criação do banco de horas não prejudicaria os funcionários?<br />Spaniol -</strong> Nós vamos manter empregos em Franca. Existem leis que asseguram os direitos trabalhistas. Não queremos o mal do funcionário, pois não queremos perder a eficiência da empresa. Precisamos adequar nossa empresa à realidade. Hoje eu enfrento a concorrência de 150 mil empresas de todo o mundo. Preciso melhorar meu desempenho e organizar minha planilha de custos de produção para não repassar aos consumidores uma alta de preço, por exemplo. Isso me tira do mercado. Há muita gente por aí operando na clandestinidade, sonegando todos os impostos e remunerando mal seus empregados, mas que competem com a minha empresa de igual para igual. Preciso constantemente rever minhas estratégias de mercado, e isso inclui minha eficiência produtiva, para permanecer vivo.</p>
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