A mulher que é agredida física e moralmente pelo marido, que não recebe dele o respeito e o amor merecidos, que não o suporta mais, acaba resolvendo separar-se. O que é razoável. Afinal, melhor só do que mal acompanhada. Mas daí nasce uma situação difícil que ela precisa ter jogo de cintura para contornar. É que não passa pela cabeça de muitos homens que a mulher possa querer livrar-se deles e seguir adiante sozinha. Isso é demais.
O ego deles não suporta. Levar um pontapé de quem eles se acham donos, de quem tratam como um objeto, de quem pensam que depende deles para viver? Vem-me à mente a música Atrás da Porta, do Chico Buarque: “quando olhaste bem nos olhos meus/ e teu olhar era de adeus/ juro que não acreditei...”. Então segue o festival de atos ridículos. Primeiro a menospreza dizendo que não vai conseguir viver sem ele, que ela não tem condições de ganhar o próprio sustento, etc. Depois, quando percebe que ela não se abala, muda de tática. Implora que não o deixe, diz que a ama, que os filhos vão sofrer, que ele vai mudar de comportamento, vai melhorar. Ante a irredutibilidade dela, que está ouvindo isso pela enésima vez, vêm as ameaças. Se ela o abandonar, ele a mata; se não ficar com ele não fica com mais ninguém. Há até aqueles que dizem que a matam e suicidam-se em seguida. Em suma: muitos homens não têm estrutura para suportar um abandono.
Após táticas e táticas infrutíferas, consumada a separação, ele continua agindo de maneira pouco digna. Ronda ameaçadoramente os lugares aonde ela vai. Inventa motivos para brigas e discussões. Fica telefonando para o trabalho dela. Não a deixa em paz. Se há filhos, todo dia de visita ele inventa motivo para briga. Diz que ela não cuida direito das crianças, que a casa está uma bagunça.
Quando trabalhava em outra comarca, atendi no gabinete um homem jovem ainda, de boa situação financeira, que dizia precisar muito da minha ajuda. Contou que era separado da mulher, que ela havia arrumado um namorado e aquilo ele considerava imoral e prejudicial às filhas adolescentes. Queria que eu desse um jeito na situação. Estava na cara que ele ainda gostava da ex-mulher e tudo não passava de pretexto para tentar atrapalhar o namoro dela com outro. Sugeri a ele que vivesse sua vida e deixasse a ex-mulher em paz; ela tinha direito de refazer a vida amorosa. Se ela não queria mais saber dele, paciência. No amor, se um não quer não tem jogo. Ainda sobravam milhares de mulheres e ele certamente encontraria outra com quem pudesse ter um relacionamento. Bola pra frente. De nada adiantava ficar remoendo o passado.
Muitos homens têm complexo de superioridade e subestimam a capacidade da mulher de vencer barreiras. Desconhecem que ela consegue enfrentar a vida pós-separação muito melhor do que eles. Certos maridos, e não são poucos, precisam aprender a dar valor à mulher que têm. Muitos tratam a mulher como se fossem seu proprietário, como se o contrato de casamento lhes garantisse para sempre a posse e o domínio dela. Esquecem que a união matrimonial implica em concessões mútuas, em dar e receber amor.
Num lar devem reinar a paz, a alegria, o amor. Agressões físicas, ofensas verbais, prepotência, menosprezo, nada disso condiz com a sagrada união do homem com a mulher. Antes de agredir fisicamente a mulher, ofendê-la verbalmente, ausentar-se nos momentos de estar com ela, o marido deveria pensar: “foi isso que prometi a ela quando a pedi em casamento? Quando vesti a melhor roupa e fui falar com os pais dela? Quando sacramentamos a união? Foi para usá-la como saco de pancadas que a tirei da casa dos pais?” Quando é abandonado pela mulher que não soube amar e valorizar, o homem deveria voltar-se para si, fazer uma análise dos erros que cometeu e tentar mudar de conduta. Não adianta querer obrigá-la a voltar mediante ameaças. Se ele a quer de volta porque a ama e não por sentir-se dono dela, pode tentar reconquistá-la. Mas isso leva tempo. E há que se ter tato. Abordagens inoportunas, súplicas, promessas, nada disso funciona, só aumenta a rejeição.
Se ele sabe que ela não o quer nem pintado de ouro, saia da vida dela, deixe-a em paz. Saiba perder. O ego ferido com o tempo cicatriza. É ridículo um homem ficar assediando a mulher que ele sabe que não o quer porque ele já demonstrou não ser digno dela.
Para você que age feito monstro com a mulher, uma sugestão:
substitua a próxima sessão de socos e tapas por um buquê de flores, gestos de carinho. Troque as ofensas verbais por elogios, palavras amáveis. Não tenha vergonha de dizer que não seria nada sem ela. Saia com ela. Mude o jeito de tratá-la. Dê a ela o que se espera de um bom marido. Cative-a. E continue assim. Talvez então consiga demovê-la da idéia que ela já vinha alimentando: pedir a separação. Se não fizer isso e perdê-la, simplesmente bote a viola no saco e suma da frente dela. Pelo menos nessa hora tenha um pouco de dignidade. Como diz Chico Buarque em Trocando em Miúdos: “eu bato o portão sem fazer alarde/ eu levo a carteira de identidade/ uma saideira, muita saudade/ e a leve impressão de que já vou tarde”.
PAULO P. COSTA é promotor de justiça de Piracicaba
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