Era bem cedo, por volta de 7 horas de quinta-feira, quando os artistas começaram a chegar à Praça Nossa Senhora da Conceição. Com eles, caminhões despejavam a serragem no chão. Era a matéria-prima para o trabalho que seria executado ao longo de toda a manhã. Centenas de “artistas de Deus” estavam reunidos para confeccionar o famoso tapete de Corpus Christi. Com matéria-prima e mão-de-obra a postos, era a hora de começar o trabalho.
Adultos, crianças e até idosos colocaram, literalmente, a mão na massa. Tudo começa com o desenho feito a giz no asfalto. Com os modelos já pensados com antecedência em mãos, muitos deles feitos em computador, era a hora de traçar as marcas no chão. Mesmo que as mãos não fossem de artista profissional. É o caso de Reinaldo Taveira, 49, que desde criança ajuda na confecção do tapete. Ele diz que não costuma desenhar com freqüência, mas já que é para Deus, faz com prazer. “Viver nesse mundo já é ser artista”, diz. Suas mãos dão vida a um imenso Cristo no asfalto, bem em frente à entrada principal da Catedral.
Feito o desenho, entra o trabalho de preenchê-lo com os mais diversos materiais. Cal, areia, tampinha de garrafa encapada e serragem, muita serragem. Material leve e de fácil manuseio, é o mais utilizado pelos artistas. Mas, antes, eles usam a criatividade para colorir. Caminhando pela praça era fácil ver mãos vermelhas, verdes, roxas, amarelas. Todas elas ajudaram no tingimento da serragem. A pequena Laura de Melo Santos, de apenas 9 anos, estava toda feliz com sua mão colorida. “Eu coloquei a mão na massa e tingi toda a serragem. Está sendo muito legal participar”, disse.
Ao todo, equipes das 13 paróquias de Franca se ajeitaram em volta da praça para confeccionar o tapete de 2 mil metros quadrados que enfeitou a praça e foi admirado mais de 7 mil pessoas à noite, durante a missa e a procissão.
Em Franca, essa é uma tradição que existe há 24 anos. E a cada edição, novos artistas aparecem. É o caso de João Lucas Rezende, 23, que participou pela primeira vez. Ele foi o responsável pelo desenho da paróquia Santo Antônio, um dos mais admirados do dia. “É muito legal. Eu faço alguns trabalhos para o grupo de oração, mas nada profissional. Agora, isso aqui, depois que a gente vê pronto, fica até difícil acreditar que fomos nós mesmos que fizemos. Eu me sinto um artista”, disse. O sentimento de João pode ser completado pela frase de um outro “fiel-artista”. “É a em hora que a gente coloca para fora um sentimento de fé. Somos artistas de Deus”, disse Edson Alves Pereira, 34, que desde criança participa da confecção do tapete.
Desde o século 14, é costume os católicos enfeitarem casas e ruas por onde a procissão de Corpus Christi passa, como forma de destacar a importância da presença de Cristo e tornar o caminho condigno da passagem do Filho de Deus. A forma mais comum de ornamentação era o uso de flores, ramos e ervas aromáticas espalhados pelo chão ou em arranjos e guirlandas. Eram dispostos ao longo do caminho da procissão em alusão à entrada de Jesus em Jerusalém antes da sua Paixão.
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