Arte religiosa nas ruas


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Serragem de madeira em diversas cores, raspa de curtume, cal hidratada, pó de pneu, mármore e granito e casca de arroz, além de tampinhas de garrafas encapadas. Isso é parte do material usado, todos os anos, pelas equipes das 13 paróquias de Franca que confeccionam tapetes para a ornamentação das ruas no dia de Corpus Christi, celebrado hoje. O trabalho, que envolve crianças, jovens e adultos, começa bem cedo. A partir das 6 horas eles estarão nas ruas que rodeiam a Praça Nossa Senhora da Conceição para colocar a mão na massa e começar a elaboração de uma grande obra de arte coletiva. Mais tarde, às 17 horas, milhares de pessoas devem apreciar o trabalho desses “artistas”. São os fiéis católicos que participarão da procissão de Corpus Christi (leia mais sobre esse assunto na página A-11). Ao todo, mais de 300 pessoas participam da confecção desse tapete de 2 mil metros quadrados. Sem contar os que ajudam com material, como as fábricas de saltos, que doam a serragem, e os curtumes, responsáveis pelo pó de couro. De posse da matéria-prima, os “artistas” abusam da criatividade e colorem esse material com anilina, criando os desenhos que comporão o tapete. Mas quem pensa que o trabalho começa apenas hoje está muito enganado. Muitos artistas preferem deixar previamente prontos os esboços dos desenhos que serão apresentados. Este é o caso da artista plástica Juliana Andrade Lemos, 38. Há seis anos ela participa da celebração de Corpus Christi e sempre leva seu trabalho semipronto. “Deixo poucas coisas para fazer na hora, como, por exemplo: jogar serragem colorida em volta do quadro”. Neste ano, Juliana usou um papel pardo onde desenhou uma bandeira do Brasil estilizada e, ao lado, fez uma cruz e a hóstia. A mensagem a transmitir, segundo ela, seria o corpo de Deus protegendo o País. Para complementar o desenho, colocou rosas vermelhas ao final do trabalho. “Neste caso a imaginação pode fluir, mas para mim significa o sangue de Cristo”, disse. Ao quadro feito por Juliana, se juntarão mais 19, além de 25 tapetes ligadores. Segundo Denizar Pugliesi, 62, coordenador-geral das equipes, os desenhos dos quadros geralmente são feitos por artistas, mas o trabalho envolve um grande número de pessoas que se transformam em verdadeiros artistas anônimos apenas nesta data. Normalmente, elas ficam responsáveis por fazer os tapetes que ligam um quadro a outro. “Às vezes os tapetes são apenas coloridos, mas a grande maioria tem um toque especial”, diz Denizar. HISTÓRIA Desde o século 14 é costume enfeitar casas e ruas por onde a procissão de Corpus Christi passa, como forma de a comunidade católica destacar a importância da presença de Cristo e tornar o caminho condigno da passagem do Filho de Deus. A forma mais comum de ornamentação era o uso de flores, ramos e ervas aromáticas espalhados pelo chão ou em arranjos e guirlandas. Eram dispostos ao longo do caminho da procissão em alusão à entrada de Jesus em Jerusalém antes da sua Paixão. Hoje, os materiais utilizados são mais diversificados e ajudam os fiéis a exercitarem a criatividade, sem distorcer o significado secular da tradição.

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