As denúncias da catadora de papelão Maria Doraci Chagas, 49, contra dois médicos da rede pública podem acabar por revelar a existência de uma máfia na Saúde em Franca. Até agora, nove servidores da prefeitura são suspeitos de envolvimento no esquema. Os médicos e até chefes de setores encaminhavam pacientes do SUS para realizar, em consultórios particulares, mediante pagamento, procedimentos que poderiam ser feitos gratuitamente pela prefeitura.
Maria Doraci foi atendida, em dias diferentes, por dois médicos da rede pública. Apesar de ser usuária do SUS, para ser submetida aos exames indicados por ambos, teria de pagar. O primeiro especialista a atendê-la foi um neurologista, que lhe solicitou um mapeamento cerebral. No próprio NGA, teria sido indicado o nome de Kátia Maria Martins. Ao ligar para a médica, a catadora soube que teria de pagar R$ 150 pelo exame.
O segundo especialista, o oftalmologista Amaury César Fernandez, teria ido ainda mais longe: ele próprio teria se proposto a realizar os exames de catarata e para medir a pressão dos olhos de Maria Doraci em seu consultório por R$ 60. Desesperada, a catadora pensou em vender sua TV para pagar os médicos.
Após denúncias do programa Hora do Cacete, da Difusora AM, e do Comércio da Franca, descobriu-se que Maria Doraci poderia ter sido atendida na rede pública. O aparelho que faz o mapeamento já foi comprado pela prefeitura, no ano passado, por R$ 27 mil, mas não é utilizado para esse fim. Segundo o secretário da Saúde, Alexandre Ferreira, a própria Kátia Martins sabia da existência da máquina, mas omitiu a informação. “A doutora Kátia sabia, mas não disse nada para ninguém”. A médica negou. “Já fiz mapeamentos da rede em meu consultório. Mas desde outubro, quando chegou o aparelho, não atendo mais pacientes do SUS com pedidos do NGA”.
Seria o mesmo caso dos aparelhos oftalmológicos. Até Amaury Fernandez, que negou ter encaminhado Maria Doraci, confirmou que os exames da catadora poderiam ter sido feitos no NGA. “Os aparelhos para examinar catarata e pressão do olho existem lá. Não caberia encaminhamento”, disse o médico.
Além de Kátia Maria Martins e Amaury César Fernandez, serão investigados o proctologista João Francisco Arantes; os neurologistas José Reinaldo Nogueira e Edith Aparecida de Pádua, todos do NGA-16; a secretária da UAC (Unidade de Alto Custo), Rosane Moscardini; a chefe do CDI (Centro de Diagnóstico por Imagem), Vera de Freitas, a chefe do setor de Compras da Saúde, Neide Lopes, e a enfermeira-chefe do NGA-16, identificada apenas como Estela.
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