Os prédios de apartamentos suntuosos e os shopping centers de luxo vão desaparecendo da vista de quem sai da Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro, em direção à Cidade de Deus. No lugar das tranqüilas ruas arborizadas, começam a aparecer movimentadas vielas com carros abandonados e lojas de artigos populares. Algumas vias estão bloqueadas com pedras que permitem a passagem de um só carro por vez. Ordens do tráfico de drogas. É desse ambiente hostil que saiu uma das vozes mais lúcidas e ácidas da atual música popular brasileira, o rapper Alex Pereira Barbosa, o MV Bill. Ele agora lança o CD Falcão - O Bagulho é Doido, que traz músicas inspiradas nas experiências que viveu com jovens das periferias de todo o País enquanto fazia as pesquisas para o livro e o documentário Falcão: Os Meninos do Tráfico.
O disco, que foi produzido pelo selo do rapper e tem distribuição e divulgação a cargo da gravadora Universal, deve chegar às lojas no próximo sábado por R$ 19,90.
Bill recebeu a imprensa na tarde de terça-feira em uma sala destinada a aulas de ginástica e tênis-de-mesa do sobrado onde funciona a Central Única das Favelas (CUFA), organização não-governamental criada por ele para tentar tirar jovens da criminalidade através do ritmo do hip-hop. “Não acho que a música deva ser necessariamente militante, mas esse é o jeito que eu encontrei de expressar minhas idéias e minha realidade. Fico muito feliz que eu tenha conseguido alcançar muitas pessoas com ela”, diz o rapper, que conta ter ficado mais maduro nos últimos anos. “Há três anos, eu era muito mais radical. Agora, eu me sinto à vontade conversando com freqüentadores da Daslu e indo a programas da Rede Globo sem ter medo de perder minha autenticidade. Além do ‘favelês’, tive que aprender a falar o português para transmitir minhas idéias”. O articulado cantor também diz ter medo de se tornar um astro pop. “Eu uso a mídia, mas tenho a plena consciência de que sou usado por ela. Preciso tomar muito cuidado para não virar mais um produto”.
Ele conta que, durante as filmagens de Falcão, enquanto seu produtor e parceiro Celso Athaíde fazia algumas das entrevistas, ele ficava distraindo os outros garotos com suas músicas. “Nessas horas, não conseguia me desvencilhar de minha veia de compositor. Foi aí que surgiram muitas das canções de O Bagulho é Doido”, diz.
Este é o quarto disco da carreira de MV Bill, depois de ter produzido Mandando Fechado (1998), Traficando Informação (1999) e Declaração de Guerra (2002).
No novo trabalho, além das tradicionais letras combativas, Bill flerta com outros ritmos brasileiros, como o samba-rock e a MPB. Uma das faixas de O Bagulho é Doido, O Preto em Movimento, traz samplers de Olhos Coloridos, de Sandra de Sá, enquanto outra traz trechos de Qualquer Coisa, de Caetano Veloso. “Sempre fui fã de Sandra. Me marcou muito um show dela em 1988, quando ela fez um discurso sobre a Abolição da Escravatura e sobre o orgulho de ser negro. Já Caetano, apesar de ser muito consumido pelas elites, ainda toca muito o povão, principalmente em suas canções antigas”. Ele conta que ainda há samplers de outras músicas no disco que ele foi obrigado a descaracterizar por não ter conseguido obter autorização para usá-los. “Há ainda uma cultura entre as editoras brasileiras de encarar o sampler como plágio”, reclama.
Bill diz não acreditar que suas músicas se tornem sucesso nas rádios. “O rap dificilmente consegue ser tocado nas FMs. Há um certo preconceito com as letras fortes e com a origem negra e pobre dos músicos”, diz o rapper.
Ele e Celso Athaíde pretendem dar continuidade ao projeto Falcão com um longa sobre o único dos meninos entrevistados por eles para o primeiro filme que sobreviveu. Eles ainda pretendem escrever um livro sobre as mulheres envolvidas com o tráfico.
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