Quando eu trabalhava na Caixa Estadual, atual Nossa Caixa, o “Paulo Macarrão”, um cliente e amigo cinqüentenário, aposentado, sempre bem-humorado, certa vez sentou-se à minha frente depois de conferir o extrato da poupança e em tom de galhofa disse: “esta vida é injusta!” Eu, curioso, quis logo saber o porquê. Ele: “quando eu tinha 20 anos, não tinha 20 mil; hoje eu tenho 20 mil, mas não tenho 20 anos”.
Isso vem a propósito do que quero falar um pouco: o dinheiro. Compreendido não só como a moeda corrente, mas tudo que ela pode comprar. É curiosa a relação das pessoas com o dinheiro. De uma coisa não há dúvida: ele move o mundo. Por ele se mata e se morre. Por ele se destrói a fauna e a flora, matam-se os rios e tudo que possibilita a vida na Terra. O dinheiro muitas vezes é exatamente do que se precisa para conhecer a real personalidade de uma pessoa. Vêem-se amiúde famílias que vivem em harmonia transformar-se em ninho de cobras; basta que surja uma herança para partilhar. Aí cada um dos herdeiros mostra sua verdadeira face. Quantas mortes não ocorrem em brigas de família na disputa por herança?!
Zé Geraldo, numa música, diz: “eu estou sentado na porta do edifício/ atento olhando o rosto de cada cidadão/ mas, que coisa engraçada/ eles parecem ter estampado no rosto um cifrão”. Nesse mundo capitalista, acho que é isso mesmo que somos. Sempre se ouve que tempo é dinheiro, como se nada mais importasse na vida.
Deixa-se de lado a convivência com a família, com os amigos, o lazer. Corre-se feito louco atrás do dinheiro, tentando-se formar o maior patrimônio material possível. E nessa corrida louca é comum ignorar probidade, princípios morais, pudor. O que impera é a ganância. Quanto mais se tem, mais se quer. Em regra se passa a primeira parte da vida perdendo a saúde para ganhar muito dinheiro; a outra parte, gastando-o para tentar recuperar a saúde ou reduzir os efeitos nocivos da corrida insana.
O que tem valor não são as pessoas, mas o seu patrimônio material. E com a deterioração dos princípios morais, não se tem dado muita importância à forma como tal patrimônio foi obtido. Fortuna financeira, lícita ou ilícita, é chave para muitas portas.
Sem dinheiro não se vive. Neste mundo globalizado, em ebulição, em evolução, com tanta tecnologia à disposição, dinheiro é indispensável. Ou não? Total desapego ao dinheiro nessa sociedade de seres cada vez menos humanos é quimera. Censuram até as esmolas aos mendigos, às crianças de rua com fome, como se estivessem na vida miserável por vontade própria.
Não dê aos desvalidos; dê ao Estado, ajude a melhorar os parcos salários e vantagens pessoais dos nossos políticos. Ajude a pagar o aviãozinho do nosso digníssimo Presidente da República e seu séquito. Como viver sem dinheiro nesta nação sem saúde pública, sem educação pública, sem transporte público, sem rodovia pública, sem segurança pública, sem vergonha pública?
Só vejo um problema com o dinheiro: dá-se a ele muita importância. Para muitos ele é Deus e senhor. E há os que, no maior descaramento, usam o nome de Deus para ganhá-lo aos montes. Muitas pessoas são escravas do dinheiro e da ostentação. Não se sentem bem se não passam a imagem da riqueza, da prosperidade.
Aparências... Eu pouco ligo. Não vejo diferença nenhuma em aliviar-me num banheiro luxuoso, com mármore, granito e metais dourados, ou num desses de piso e azulejos baratos. Uma pessoa endinheirada me disse que quando se sente entediada vai às compras para levantar o astral. Pura ilusão. O fastio nesse caso não é pela falta de bens materiais. Talvez seja pelo excesso deles. Há histórias incríveis dessa relação homem/dinheiro.
Um cliente idoso sacou todo o saldo que possuía na caderneta de poupança; logo que pegou e sentiu o dinheiro na mão, voltou para depositá-lo. A funcionária do banco, surpresa, perguntou: “mas o senhor não queria sacar?”. Ele: “era só para ter certeza de que o dinheiro estava mesmo aqui”. Há algum tempo a mídia mostrou o caso de um senhor que acumulou uma fortuna mas guardou em casa em vez de depositar num banco, e quando deu por si a havia perdido, pois as cédulas não tinham mais validade. Em separações judiciais, é comum haver discordância quanto à partilha dos bens.
Por uma diferencinha na divisão, a coisa empaca. Milionários que já têm dinheiro suficiente para várias gerações, querem mais e mais. Por outro lado, conheço pessoas de patrimônio modesto que irradiam felicidade, alegram o ambiente, têm muitos amigos.
Feliz de quem consegue viver com pouco dinheiro ou que, tendo muito, por ele não se deixa escravizar. O Dr. Sócrates, quando jogava no Corinthians, perguntado sobre quanto ganhava, disse: “mais do que preciso para viver e menos do que podem me pagar”. Para terminar, um trechinho da música “Amor pra recomeçar”, do Barão Vermelho: “desejo que você ganhe dinheiro/ pois é preciso viver também/ e que você diga a ele, pelo menos uma vez/ quem é mesmo o dono de quem”.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça de Piracicaba
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