Um magnífico espetáculo da natureza. A região do Castelinho tem sido palco de uma verdadeira manifestação de exuberância a cada fim de tarde e início de manhã nesta época do ano. Centenas de garças-vaqueiras utilizam os eucaliptos que margeiam o lago do clube para “pernoitar”. E os instantes que antecedem e sucedem esse merecido descanso de pássaros, que chegam a voar mais de 40 quilômetros por dia, oferecem uma cena digna de contemplação.
O espetáculo tem palco certo e hora marcada para começar. Por volta das 17 horas, os primeiros atores já estão a postos. São seres da espécie denominada cientificamente de Bulbucus ibis descrita pela primeira vez em 1758. As garças-vaqueiras, como são chamadas comumente, vieram da África. Chegaram ao Brasil, na Ilha de Marajó, no Pará, em 1964 e já ocupam praticamente todas as regiões do território nacional. Elas têm aproximadamente 40 centímetros de altura.
O Castelinho é o ponto escolhido pelos pássaros como dormitório na região de Franca. Atualmente, são mais de quatro mil exemplares reunidos. “Elas preferem dormir juntas para evitar o risco de predação. Lobos-guará e onças pardas são os principais predadores por aqui”, explica Tadeu Artur de Melo Júnior, mestre em Biologia e professor da Unifran. O professor estuda o movimento migratório e a população das garças-vaqueiras na região de Franca há três anos com equipamentos de alta tecnologia como GPS (equipamento que verifica o posicionamento dos animais).
Ele diz que a quantidade de pássaros tem aumentado de maneira gradativa. “Em 2003, um censo aproximado apontou 897 indivíduos.
Em 2004, foram 3.930. No ano passado, o pico ficou em 5.060 garças.” Entre dezembro e fevereiro, as garças desaparecem da região. É a época utilizada para reprodução e Tadeu ainda não sabe para onde elas vão. Mas a partir de março os pássaros começam a reaparecer e permanecem até novembro. O maior número é constatado entre junho e agosto.
A concentração de garças na região do Castelinho tem algumas explicações. O lago do clube, que é o maior espelho d’água da região de Franca, e os eucaliptos com grande altitude ao redor do lago oferecem uma disposição favorável para acomodar os pássaros. “As garças preferem árvores altas e, mesmo com uma alimentação baseada em insetos, a água também exerce atração”, disse Tadeu.
CAFÉ DA MANHÃ
E é exatamente a busca por alimentação que motiva o primeiro vôo das garças no dia. Pouco antes das seis horas da manhã, os primeiros bandos abandonam os eucaliptos e voam em busca de insetos. A volta para as árvores-dormitório só ocorre no fim do dia, quando a rotina de busca por comida em pastos da região termina. “Já identificamos sete pontos principais de fonte de alimento para elas”, diz Tadeu. Esses pontos, fazendas com criação de gado distantes até 20 quilômetros do Castelinho, estão espalhados por cidades vizinhas a Franca e não são os únicos locais que recebem as garças. Há outros subpontos para os quais alguns indivíduos rumam após partirem do clube.
TRILHA SONORA
A visão das mais de quatro mil graças se acomodando nas árvores é espetacular. O predomínio do branco das penas dos pássaros sobre o verde das folhas faz lembrar árvores nórdicas sob as nevascas características do hemisfério norte. Mas, se os olhos agradecem o presente, os ouvidos não se privam de reclamar. Os minutos utilizados pelas garças para ocuparem cada qual seu lugar entre os galhos da árvores são recheados de “grasnados”.
O barulho das centenas de pássaros juntos é ensurdecedor. “Os gritos são usados para organizar o bando”, diz o professor Tadeu. “Acho, inclusive, que é por meio deles que os indivíduos superiores na hierarquia do bando se impõem. Só não sei se existe preferência por locais na hora de dormir e nem se os líderes do grupo alertam algum outro companheiro que esteja prestes a pousar: ‘Aqui é meu lugar’”, disse Tadeu entre risos.
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