De onde vem e para onde vai o PPS?


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Quem participou do último congresso do PPS, no final de março de 2006, em Belo Horizonte, teve a oportunidade de realizar um aprendizado político bastante importante. Para explicitá-lo vou me referir aqui a apenas duas atividades que ocorreram no referido Congresso: o comício na Praça da Liberdade e a sessão de abertura. O comício foi relativamente concorrido e os discursos bastante enfáticos, com criticas ao governo, aos mensaleiros, à política econômica, ao PT, e também ao PSDB. Havia um pano de fundo em todas as falas: afirmar a candidatura de Roberto Freire à presidência da República como uma candidatura alternativa ao que se chamou de “a continuidade do mesmo”, insinuando a identidade entre os governos do PSDB e PT. As críticas mais pesadas, como não poderiam deixar de ser, eram dirigidas ao PT e ao governo Lula, especialmente no plano da ética e da política econômica. A crítica ao PSDB era mais lateral e indireta. Mas, mesmo assim elas eram contundentes, o que se encaixava na lógica que comandava os oradores. Era natural que as falas a respeito do governo Lula chegassem próximas ao limite uma vez que já de há algum tempo a oposição ao governo Lula feita pelo PPS é aberta e se recrudesceu desde o momento que o partido deixou a base de sustentação do governo. Até ai nada de raro ou estranho: um comício de um partido de esquerda e em oposição ao governo. Terminado o comício, a passeata de filiados, militantes e aderentes caminhou em direção ao local onde se realizaria a abertura do Congresso do PPS. No trajeto, brados a favor de Freire e do PPS, slogans exaltando a história do PCB, canções e hinos que rememoravam a mística comunista. Chegando ao local do Congresso e depois de uma breve pausa, rapidamente o enorme salão onde se realizaria a sessão de abertura recebe uma multidão de pessoas, com delegações de todos os Estados, convidados e representantes de partidos irmãos de outros países. Depois de composta a mesa diretora, os discursos se sucederam no mesmo tom e com a mesma ênfase daqueles que se fizeram havia algumas horas atrás. A partir de um certo momento, pouco antes de se aproximar a hora de Roberto Freire usar a palavra, formou-se uma agitação à porta de entrada do salão. Fotógrafos e curiosos se aglomeraram freneticamente de um momento para outro. Algo ocorria. Adentrava a sessão de abertura do Congresso do PPS o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, do PSDB. Imediatamente instado a falar, Aécio tomou o microfone e fez um discurso preciso: valorizou a trajetória dos comunistas brasileiros em defesa do país, em especial, em defesa da democracia e de uma vida melhor para o povo brasileiro. Afirmou categoricamente que o pecebismo construíra uma tradição política da melhor qualidade na vida política brasileira e que ele havia tido a oportunidade de conviver e aprender muito com essa tradição. E mais, que essa tradição, com certeza, daria ainda muitos frutos ao país. Depois de Aécio, Freire é convidado a falar. Paira uma dúvida no ar: qual seria o eixo do discurso de Freire após o belo e generoso discurso de Aécio? Honestamente, Freire começa a sua fala indicando que iria fazer um discurso diferente daquele que havia pensado em fazer. Começa a falar e realiza uma análise bastante profunda de toda a trajetória da luta democrática que se travou no Brasil, desde o antigo MDB até aos dias atuais. Aponta para caminhos e descaminhos. Nesse percurso, valoriza precisamente a tradição de alianças do velho PCB em favor de uma política democrática para o Brasil. Um perfil de aliança sempre bem definido como ampla e sem restrições para que em nenhum momento houvesse dispersão de forças na luta contra a ditadura. Aproveitou a oportunidade para elencar os diversos momentos da vida política brasileira em que houve mais convergência com o PSDB de Aécio do que com a estreiteza da política hegemonista do PT, um partido que nunca compreendeu a política democrática dos comunistas brasileiros. Com esse discurso Freire abriu o congresso do PPS, ainda apresentando-se como pré-candidato. Naquele discurso de Belo Horizonte, Freire resgatava o conceito de política de alianças que construiu a identidade do pecebismo. Mais do que isso: mostrou outra vez que o comunismo, como doutrina e ideologia assim como todo esquerdismo , embrutece a política. Seu discurso reafirmou uma verdade já sabida: o pecebismo é o comunismo civilizado pela política. E é essa a identidade que o PPS deve perseguir. Como nos velhos tempos: uma herança que não se deve renunciar jamais. O PPS não é mais o velho PCB, mas está no mesmo lugar! ALBERTO AGGIO é historiador e professor livre-docente de História da América na Unesp/Franca autor e organizador de Pensar o século XX (Editora Unesp, 2003).

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