O que os trabalhadores rurais entendem por exploração de trabalho é a falta de condições para um ganho justo. Em discurso uníssono, eles afirmam agüentar o trabalho pesado que é cortar cana, mas para isso querem remuneração compatível ao esforço. “Não viemos para brincar. Estamos aqui para trabalhar e voltar para casa com dinheiro no bolso”, disse o pernambucano João Flor. Para ele, o valor de R$ 0,15 pelo metro de cana cortada não compensa a viagem até o interior de São Paulo.
Para um trabalhador “ganhar o dia” sob estas condições, significa colher diariamente, no mínimo, 200 metros de cana, para receber R$ 30. Para trás, o empregado terá deixado cerca de 10 toneladas amontoadas, o suor de oito horas trabalhadas e aproximadamente 30 minutos de descanso. Se mantiver o rendimento, em 30 dias, descontados os domingos, o cortador de cana receberá R$ 780. “Mas num canavial como este, não fazemos o ‘comê’ (mantimentos). Às vezes a gente pega muitas quadras ruins, ‘encarriadas’ (em seqüência), e o ganho no mês fica muito baixo, cerca de R$ 15 por dia. Não paga as contas”, disse Erivan da Silva.
MINISTÉRIO DO TRABALHO
Além do preço pago pelos fazendeiros, os trabalhadores rurais também denunciaram a falta de equipamentos de proteção para o corte seguro da cana. “Muitas vezes, quando (os empreiteiros) ficam sabendo que vem fiscalização (do Ministério do Trabalho), eles arrumam os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) para a gente, como no mês passado. Mas ainda tem muita gente que não recebeu”, disse Edielson Lima.
A própria reportagem do Comércio da Franca constatou, ontem, que alguns cortadores de cana realmente não portavam os equipamentos de segurança, como mangote (para proteção do braço), bota ou máscara. De acordo com Valdir Augusto de Souza, dono do ônibus de transporte dos lavradores e gerente agrícola, muitos têm equipamentos mas não os usam porque não querem. “Eles deixam em casa ou guardados na bolsa. Não tem como obrigar a usar”, disse.
No local também faltava um banheiro para uso dos trabalhadores, e a barraca para o sombreamento durante o almoço começou a ser montada após a chegada da equipe do Comércio. “O Ministério do Trabalho fará uma fiscalização em todas as fazendas da região em junho. Quem não estiver de acordo com a lei será autuado e multado”, disse Jamil Leonardi, da DRT (Delegacia Regional do Trabalho) de Franca.
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