Após a queima de mais um talhão do canavial da Fazenda Furnas, no município de Patrocínio Paulista, os lavradores são informados de que o acerto é de R$ 0,31 o metro colhido. Para quem, em maio, num único dia, cortou 268 metros, como José Ronaldo Alves da Silva, a possibilidade de ganho de até R$ 83 o anima. Mas ao ver a situação da plantação em questão, percebe que recebeu um “presente de grego”.
Canas debruçadas ao solo (ação causada por ventos e temporais durante o período de brota) e trançadas umas nas outras dificultarão o serviço e, fatalmente, impedirão um bom rendimento. “O máximo que a gente faz em casos assim é 50 metros”, conta José Ronaldo. Pela medida, sua diária não é maior que R$ 15,50.
São questões como o baixo preço oferecido, aliado a melhores condições de trabalho reivindicadas e o fim da terceirização do corte de cana que fizeram com que os 50 trabalhadores contratados pela empreiteira Aires Henrique Selegato EPP (Empresa de Pequeno Porte) parassem, ontem, em uma espécie de “greve de um dia”. O protesto visa sensibilizar fazendeiros e autoridades para a situação.
De acordo com José Almir Lopes da Silva, em oito anos de trabalho em lavouras da região, este é o primeiro em que ainda não conseguiu juntar dinheiro para levar para sua cidade natal, União dos Palmares, em Alagoas. A explicação, talvez, esteja no fato de os trabalhadores serem terceirizados da Fazenda Furnas, fornecedora de cana-de-açúcar à Cevasa (Central Energética Vale do Sapucaí). Um tipo de terceirização da terceirização.
O subdelegado da DRT (Delegacia Regional do Trabalho) de Franca, Jamil Leonardi, disse que não há muito o que ser feito sobre isso. “O que tentamos em rodadas de negociações com fazendeiros, usineiros e sindicatos de trabalhadores é intermediar um acordo de melhor remuneração. Mas, os sindicatos rurais, responsáveis pelos acordos coletivos, é que têm de atuar mais incisivamente”, disse Jamil.
FAZENDO DÍVIDAS
A renda de cerca de R$ 500 por mês, de acordo com os trabalhadores, não é suficiente e muitos ficam devendo nos mercados da cidade para não passar necessidade. “Eu mesmo devo uns R$ 400 para o Funchal (dono de uma mercearia em Patrocínio). Pago uma dívida e faço outra”, disse Edielson Lima da Silva.
Casado e com uma filha de 10 anos, ele vive com a mulher em uma pequena casa de três cômodos, pela qual desembolsa R$ 160 de aluguel e cerca de R$ 30 de água e luz. “Não sobra muita coisa para pagar as contas. Ainda devo para o homem que trouxe a gente para cá”.
O aliciador de migrantes, que não foi encontrado pela reportagem, cobrou R$ 180 de cada um para transportá-los de Alagoas e Pernambuco. Edielson teve que desembolsar R$ 540 pela família. “A gente vem todo ano pensando em ganhar dinheiro, pagar as contas aqui e, com o que sobra, fazer a vida na nossa terra. Dessa vez, talvez a gente volte para casa com dívida”, disse Erivan José da Silva, também descontente com a renda deste ano. “Para ganhar R$ 400, R$ 500, eu ficava em São Benedito do Sul (PE) mesmo. Lá também tem usina que paga isso”.
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