Desculpem-me o lugar comum utilizado no título desta crônica. É que esta figura de linguagem, apesar de bem gasta, serve perfeitamente para ilustrar alguns aspectos que talvez tenham passado despercebidos pela maioria de nós, a respeito do tema.
A violência de nossos tempos realmente possui proporções oceânicas, e, como tal, também é gigantesca e ameaçadora. Tentamos levar nossas vidas em “terra firme”, mas ele continua lá. Podemos esquecer de sua existência, mas mesmo assim, ele está no mesmo lugar, a nos espreitar.
Diuturnamente, beija nossas praias com suas ondas, porque é assim que as coisas são, e, justamente por ser essa a “ordem natural das coisas”, nós que vivemos longe das cidades litorâneas nos sentimos tranqüilos, achando que nada poderá nos atingir. Até que acontece o que até então seria impossível; um tsunami com ondas enormes vem e pega a todos de surpresa. Passado o susto e chorado os mortos, tudo volta ao “normal”.
A violência contemporânea realmente parece muito com o mar, existe independente de nós e de nossos esforços. Para entendermos melhor a metáfora proposta no título, basta colocarmos no lugar do continente o Estado moderno. O mar, por sua vez, pode ser compreendido como o estado paralelo, pois coexistem. Apesar de todos terem conhecimento acerca de seu tamanho, desde que não nos incomodem ninguém se importa. E é justamente essa postura hipócrita que faz com que esta violência, que até pouco tempo, possuía níveis suportáveis, ganhe as proporções conhecidas recentemente.
Apesar da sensação de “onda”, que vem e depois volta, a violência e o crime organizado existem e devem ser tratados não como fato esporádico através de medidas “emergenciais”, e sim como uma realidade concreta e duradoura, que bebe nas fontes da desigualdade social e da miséria.
Não basta mais nos escondermos em castelos altíssimos, distantes da plebe, como na Idade Média, pois as “ondas”, cada vez maiores, nos alcançam, aonde quer que estejamos.
CARLOS AMORIM é historiador formado pela Unesp-Franca, professor, escritor e presidente da Associação Centro Cultural Casa do Estudante e autor de A Igreja do Diabo (Editora RGE, 2004)
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