Livros dentro da fábrica


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As oito horas diárias de trabalho dentro de uma fábrica de calçados são quebradas pela leitura. O cheiro de cola é trocado pelo cheiro de jornal, de páginas de revista, de livros folheados. No horário de almoço, além de comer, funcionários aproveitam para ler. Essa nova rotina já pode ser observada em mais de 50 indústrias de Franca. São empresas conveniadas ao Sesi (Serviço Social da Indústria) e que aderiram ao programa Caixa-Estante. O serviço é oferecido gratuitamente e tem à disposição 12 mil livros, além de exposições itinerantes. O funcionamento é simples. A empresa se cadastra no Sesi e retira uma caixa de metal recheada de livros. Nas maiores, cabem cerca de 100 títulos. Nas menores, 60. A caixa é colocada em uma sala da empresa e os funcionários fazem uma ficha e podem retirar quantos livros quiserem, levar para casa ou ler no próprio local de trabalho na hora do almoço ou nos intervalos. Os livros que estão na caixa são trocados periodicamente. Não há gasto algum para a empresa nem para os funcionários. A sapateira Maria Conceição Nunes Custódio, 43, adorou a novidade. Diz que criou o hábito de leitura depois que o projeto chegou ao seu local de trabalho. “Acho que é um estímulo pra gente, que não precisa se deslocar até uma biblioteca”, diz. Além de usar o horário de almoço para a leitura, ela também leva livros para casa. “Até o meu marido acaba lendo”, diz. No caso da Sândalo, o interesse dos funcionários pelo projeto foi tão grande que a empresa resolveu montar uma biblioteca na linha de produção. Em uma sala, foram colocados mesa, cadeiras, poltronas, sofás e uma estante com as caixas, outros livros, revistas e jornais. No horário de almoço, o local fica lotado. “Para a empresa foi muito bom porque despertou o interesse do funcionário pela leitura. Quem não pode comprar um livro ou não tem tempo de ir a uma biblioteca pode ler aqui, na hora do almoço”, diz José Carlos de Oliveira, gerente de Recursos Humanos da empresa. Segundo Ana Maria Borges, responsável pelo serviço no Sesi de Franca, já são 56 empresas conveniadas. “É um trabalho que deu muito certo e é extremamente gratificante para mim. Temos empresas com mais de mil leituras por mês”, diz. Para os funcionários, ter livros, revistas e jornais assim tão perto é um estímulo e uma grande oportunidade. A auxiliar de produção Sandra Alves Santos, 33, acha muito mais prático não ter que correr atrás de uma biblioteca. “Eu já tinha o hábito de ler. Mas achei muito boa essa idéia de ler no próprio ambiente de trabalho”. MAIS DO QUE LEITURA Em alguns casos, a biblioteca dentro da fábrica de calçados despertou mais do que o interesse pela leitura. Para Loren Aparecida Dimas Silva, 21, foi uma oportunidade para colocar em prática sua paixão pelo trabalho voluntário. Além de trabalhar como auxiliar de produção, ela cuida da biblioteca voluntariamente no horário de almoço. Também é dela o mérito de os funcionários da Sândalo respeitarem o espaço da biblioteca. “A disciplina dentro do local foi implantada com o tempo. Aos poucos eles perceberam a importância do silêncio, por exemplo”.

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