Eis o melhor de Marisa Monte. Mais madura e arrojada, segura de si e do potencial do que canta, ela voltou aos palcos depois de cinco anos com um show que é uma “simplicidade de trombetas”. Essa é a última semana para assistir ao show da cantora no Credicard Hall, em São Paulo. Em julho, ela parte em turnê para o Rio de Janeiro e, em seguida, segue para shows internacionais. Já estão agendadas apresentações em Portugal, Barcelona, Madri, Londres, várias cidades dos Estados Unidos, Paris, Milão, Roma, Florença, etc.
Para mais de uma geração, as canções de Marisa já são trilhas de tantas histórias quanto as que foram de Roberto Carlos em outras décadas. Essa impressão fica mais nítida agora. O íntimo de cada espectador desse universo ao redor da cantora parece encontrar um mundo paralelo em seu infinito particular. Marisa arrebata a audiência cantando baixo para se fazer ouvida, valoriza música e músicos, subverte sua condição de centro gravitacional, se faz “pequenina e gigante” ao mesmo tempo.
A agitação barulhenta que permeia os shows de chefões da MPB não combina com a nova Marisa, mais autoral, mais instrumentista, mais serena, de voz lapidada e cristalina. Sem segredos, mas com o necessário mistério, ela assume o palco no escuro e assim canta Infinito Particular inteira. Parte do público estranha, acha que é defeito, pipocam ansiosos flashes de câmeras digitais, até que um tênue feixe de luz toca de relance o rosto da cantora.
Suspense até que o efeito se repita na segunda parte da canção. “É um estranhamento bom esse”, diz ela. “É um sonho cantar uma música no escuro, aguça os sentidos, a audição”.
Na canção seguinte, saindo de uma enorme placa quadrada suspensa sobre ela e os músicos, todos vestidos de preto, o palco é inundado de luz. Sem cor nenhuma em momento algum, a arquitetura de iluminação forma um só conjunto com o cenário, composto por gruas, painéis óticos de tecnologia Led e blocos reluzentes que se movem das laterais do palco sobre trilhos. Esse trânsito contrasta um pouco com o traço contemplativo da parte musical – quase toda calcada na sonoridade camerística de recital de cordas e sopros –, mas não é a única composição que faz a diferença.
Marisa divide a direção com Leonardo Netto e Cláudio Torres e passa boa parte do tempo sentada sobre um praticável, em que toca vários instrumentos (isto também é incomum em seus shows), como violão, kalimba (instrumento melódico de percussão tocado com as unhas dos polegares), ukulele (tipo de cavaquinho), gaita, cavaquinho e guitarra. “O show é mais contemplativo, tem a ver com os discos, o próprio repertório serve ao meu momento. Acaba que as pessoas se adaptaram a isso”, observa a cantora.
Onde ela se situa – não à frente, mas ao lado e até atrás dos músicos – é outra transgressão. “É difícil se livrar do formato comum dos shows, em que a cantora fica na frente e no centro e até quando tem solo dos músicos a luz está nela. Nos ensaios me relaciono durante dois meses olhando os músicos todos e depois vai todo mundo pra trás? É muito óbvio tudo isso. Achei legal mexer com esses valores, porque eu na penumbra ainda sou eu”, considera a antidiva. Isso tudo é em prol da comunicação da música. “Talvez as pessoas vão até ouvir mais você”, diz.
O roteiro se inicia com as canções-título, abre-alas e definitivas de seus álbuns mais recentes – o muito bom Infinito Particular e o ótimo Universo ao Meu Redor (de 2006) –, incluindo Carnavália, de Tribalistas (2002), vitorioso projeto dela com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. O forte do roteiro, recheado de canções novas, sofisticadas e sutis, é assinado pelo trio e seus agregados, mas também há lindos sambas de Paulinho da Viola, Jayme Silva e Adriana Calcanhotto. A maior novidade, no entanto, é a tribalística e inédita Não É Proibido, festiva meio soul, meio boogaloo à Tim Maia, em que Marisa solta as rédeas e põe a galera para dançar. É um hit instantâneo.
Além do repertório já definido de 23 canções, há outras sete que “flutuam num trânsito constante” e devem entrar nos futuros shows da turnê. O Bonde do Dom, Um a Um e Gerânio estão entre elas. No mais, ela escolheu a dedo highlights de outro de seus melhores álbuns, Verde Anil Amarelo Cor-de-Rosa e Carvão (1994), tem o momento de levanta-braços (Não Vá Embora) e até de brincar com as vozes em contraponto da platéia no coro de Velha Infância.
Marisa está bem acompanhada de Dadi (baixo, violão e guitarra), Mauro Diniz (cavaquinho e violão), Marcelo Costa (bateria e percussão), Pedro Baby (violão e guitarra), Carlos Trilha (teclados e programações), Maico Lopes (trompete), Pedro Mibielli (violino), Marcus Ribeiro (cello) e Juliano Barbosa (fagote).
Como nas outras turnês, a estréia em Curitiba teve significado especial. “A razão principal sempre foi o Teatro Guaíra, que é exemplar como estrutura”, explica. Ideal para ouvir esse barulhinho bom.
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