50 MIL francanos comem arroz e feijão. E só.


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O aposentado Carlos Porto e as netas Jeniffer, Kailane e Ana Cláudia (da esq. para a dir.) mostram um dos únicos alimentos consumidos pela família nos últimos meses: eles têm comido arroz, feijão e chuchu e apenas
O aposentado Carlos Porto e as netas Jeniffer, Kailane e Ana Cláudia (da esq. para a dir.) mostram um dos únicos alimentos consumidos pela família nos últimos meses: eles têm comido arroz, feijão e chuchu e apenas
Arroz, feijão e chuchu. Uma vez ao dia. Há meses, essa tem sido a realidade na casa do aposentado Carlos Porto, 48. A família dele (14 pessoas, inclusive crianças) mora em um barraco de madeira na Rua Nelson Japaulo, 1.280, no Jardim Vera Cruz, e trava uma luta diária para conseguir comida. Frutas, verduras e carnes não chegam à mesa deles há muito tempo. “Carne? Carne é comida de rico. A gente come arroz, o chuchu que planto no quintal, e feijão, quando sobra dinheiro para comprar”, disse Carlos. A única renda deles é o benefício do Previdência Social, de R$ 240. Em Franca, esse não é o único lar onde há deficiências nas refeições. A secretária de Desenvolvimento Humano e Ação Social, Maria Ignez Archetti, acredita que o problema atinja 50 mil pessoas (16% da população). Ela se baseia nas pessoas inscritas no programa Bolsa Família. “A prefeitura tem 6.500 beneficiados e outras 3.500 na fila. São dez mil no total. Considerando que cada família possui em média cinco membros, temos 50 mil moradores do município com dificuldades para se alimentarem”. Segundo ela, não há populares passando fome na cidade, mas em “insegurança alimentar”, ou seja, possuem o que comer, mas o cardápio mínimo não contém os nutrientes necessários para um desenvolvimento saudável. “A fome é nada, ausência completa de alimentos, pele e osso. Não é o caso do município. As famílias têm o ‘basicão’: arroz, feijão e macarrão, sem carnes, frutas, legumes e verduras. Há uma séria deficiência”. São famílias que recebem menos de um salário mínimo e têm direito ao Bolsa Família. O perfil delas é o mesmo da família de Porto, com variações mínimas. “O salário é inferior a R$ 350 e precisa ser usado para pagar aluguel, contas, remédios e comida. É impossível sobrar recursos para melhorar a alimentação. A opção é comprar o que dá, o básico. As bolsas do governo apenas amenizam o problema”, disse Maria Ignez. A preocupação aumenta quando se sabe que a insuficiência alimentar atinge a saúde e a educação. O pediatra Eduardo Simões alertou sobre os comprometimentos da falta de uma alimentação adequada no desenvolvimento global da pessoa: a deficiência de nutrientes causa desnutrição e pode atrasar os desenvolvimentos físico e neuropsicomotor, especialmente se a ausência ocorrer nos três primeiros anos. É nessa faixa etária que ocorre maior crescimento, ganho de peso e desenvolvimento cerebral. Até os 2 anos, os filhos costumam crescer 37 centímetros, depois a média anual cai para 5 centímetros. O bebê costuma nascer com 3 quilos e deve atingir 15 quilos aos 3 anos. O peso aumenta cinco vezes neste período, depois o ganho é bem menor, de cerca de 2,5 quilos ao ano. “É realmente uma fase muito importante e precisa ser de qualidade. Se a alimentação não for nutritiva, com proteínas, carboidratos e gordura, a criança terá dificuldades de aprendizagem no futuro”, disse o médico. A amamentação também é essencial para a saúde dos filhos, mas se a mãe não estiver bem alimentada, o leite não terá boa qualidade. “Ela (a mãe) precisa de sucos, frutas, verduras, legumes e de uma alimentação balanceada para ser saudável e produzir um leite nutritivo para o bebê”. Atualmente, moradores com deficiências em seus cardápios são atendidos por programas de renda do governo, pastorais, ONGs e até o fim do ano deverá ser implantado na cidade, em parceria com a prefeitura, o programa Banco de Alimentos, do Ministério do Desenvolvimento Social. “Pessoalmente, acho que a fome e a insegurança alimentar não podem existir. Sejam uma ou 10 mil famílias, não pode”, disse a secretária de Ação Social.

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