<p>Em dois dias em Franca, Duarte Nogueira, ou Nogueirinha, como é conhecido por companheiros do campo, visitou partidários e correligionários na região, costurou alianças e se prepara para concorrer a uma vaga a Câmara Federal. Já foi secretário de Habitação no governo Mário Covas (1995-1996) e da Agricultura no governo de Geraldo Alckmin (2003-2006), sendo nesta última área onde transita com maior facilidade, até mesmo por sua formação de engenheiro agrônomo. Se sente à vontade ao tratar do tema e critica abertamente a política econômica adotada pelo governo federal. Nogueirinha considera fraco o desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos assuntos do setor, condena a demora nas ações e sugere que o governo petista viveu os primeiros anos de seu governo gozando de condições econômicas favoráveis ao País construídas pelo seu partido, durante os oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso. <br /><br />Defende o ministro Roberto Rodrigues, mas reconhece sua falta de poder político, ao lembrar que durante o tempo em que ele esteve na pasta de Agricultura ficou “com a brocha na mão”, numa clara alusão sobre a falta de apoio à agricultura. Na região de Ribeirão Preto e Franca - que considera como um de seus redutos eleitorais -, espera receber tantos votos quanto possível para alcançar os 140 mil necessários para chegar à Câmara Federal, em Brasília. Confira a entrevista que concedeu duarante sua visita ao Comércio. <br /><br /><strong>Comércio da Franca - O governo liberou esta semana recursos para os agricultores saldarem suas dívidas e retomarem a produção. O dinheiro chegou em boa hora?<br /></strong><strong>Antônio Duarte Nogueira Júnior</strong> - A gente, hoje, está vivendo esta crise gravíssima na agricultura, por falta de sensibilidade deste governo com o setor produtivo, que prejulgou o agricultor como um caloteiro, como se todos fossem caloteiros. Na verdade não são, essas pessoas pagam suas dívidas. Talvez, a única coisa acertada no pacote do governo anunciado nesta semana para resguardar os agricultores tenha sido a cláusula que garante ajuda apenas àqueles que estiveram quites com o seu financiamento até dezembro de 2004. Porque, em 2005, veio a crise e aí ficou difícil. Mas não tocaram na questão da infra-estrutura, não tocaram na questão do custo de produção, pesquisa agropecuária... Portanto, é mais um paliativo, jogo de “empurrar com a barriga”, de jogar o problema para o ano que vem.<br /><br /><strong>Comércio - Por que o tratamento privilegiado dado para a agricultura familiar em detrimento do agronegócio, que também possui elementos de sustentabilidade familiar entre pequenos e médios produtores? <br />Nogueirinha</strong> - Se o tratamento dado à agricultura familiar fosse feito de maneira a dar a ela condições de ter uma inserção mais importante na produção agropecuária, talvez presenciássemos um progresso muito maior na agricultura. Mas não é o que ocorre. A visão de agricultura familiar que eles têm (governo federal) é assistencialista, o que torna estes setores dependentes do governo. <br /><br /><strong>Comércio - Na Agrishow 2004, durante uma discussão no Fórum Nacional dos Secretários de Agricultura de vários Estados, o senhor, como presidente do fórum, adiantava a necessidade de se investir pesado em fronteiras secas de Estados, como principal preocupação em relação à contaminação dos rebanhos brasileiros por doenças. No ano passado, a aftosa surge em áreas apontadas no encontro. O governo não sabia disso? <br />Nogueirinha</strong> - Em 2004, quando fizemos a reunião do Fórum Nacional na Agrishow, o recurso para defesa animal estava muito aquém das nossas necessidades e os Estados do Centro-Oeste, Sudeste e Sul abriram mão, num primeiro momento, de receber um recurso que já estava liberado. Priorizamos a “franja” nordeste e norte, com o compromisso de que os outros recursos seriam liberados nos meses subseqüentes. Mas não o foram. Ou seja, mais uma vez, o governo, no caso o Ministério da Agricultura, assumiu um compromisso que não pôde cumprir porque as áreas de Planejamento e de Fazenda deixaram o ministro (Roberto Rodrigues) mais uma vez com a “brocha na mão”. Nenhuma decisão foi tomada de 2003 para cá, antecipando crises. O que é que ele (o governo federal) fez? Contingenciar os recursos do Ministério da Agricultura. No ano passado, estavam previstos R$ 135 milhões, liberaram só R$ 37 milhões; São Paulo continuou não recebendo “um real” para defesa animal, como não recebeu em 2003 e também em 2004 e não recebeu em 2005 até que surgiu o surto de febre aftosa no Mato Grosso e no Paraná. Posteriormente, foi receber alguma “coisinha” em novembro ou dezembro. Virou o ano, o recurso estava contingenciado e mandaram liberar tudo, “porque agora é segurança nacional, prioridade máxima”. Ficou-se sem gastar, perdeu-se por falta de capacidade de aplicação daqueles recursos em defesa sanitária. <br /><br /><strong>Comércio - Mas o governo federal comemora os progressos também no campo... <br />Nogueirinha</strong> - Não passam de factóides. Em 1999, 15 de janeiro, a saída de Gustavo Franco, mudança da política cambial, o dólar passa a flutuar e a gente retoma a competitividade. E em 2001, a entrada dos recursos com taxas civilizadas para reformar todo o nosso parque de máquinas (Moderfrota). Então, esse conjunto de decisões planejadas, cadenciadas, junto com o aumento da área plantada, o uso da tecnologia e a necessidade do resto do planeta por alimentos bons e baratos levou o Brasil a ocupar este mercado, projetou-o em 2003 como o maior exportador de carne bovina do mundo, em 2004 como o maior exportador de carne de frango do mundo, 2º lugar em soja, 1º lugar em fumo, em açúcar, álcool, suco de laranja e por aí vai. Quem fez tudo isso foi o PSDB, não foi o presidente Lula. Aí, o que aconteceu em 2003 quando o governo (Luiz Inácio) Lula (da Silva) assumiu? Eles pegaram um “céu de brigadeiro” na economia mundial, um patamar jamais visto na agricultura brasileira, tanto é que ele (Lula) foi à Agrishow em 2003, andou de trenzinho, foi em 2004; já em 2005 não apareceu e agora (2006) também não pôde aparecer mais. Por quê? Porque não fizeram nada. <br /><br /><strong>Comércio - Até que ponto essa crise atual compromete a agropecuária? <br />Nogueirinha</strong> - Já comprometeu. Ela tirou uma renda do setor produtivo nestas duas últimas safras de R$ 30 bilhões, quebrou o crescimento da produção... Nós vamos levar de dois a três anos para recuperar este estrago por falta de uma decisão que se tivesse sido tomada no começo do ano passado, nós não teríamos tirado da adimplência os agricultores que estão com grandes problemas agora. <br /><br /><strong>Comércio - Qual a sua opinião sobre as invasões de fazendas realizadas nas últimas semanas pelos sem-terra na região? <br />Nogueirinha</strong> - O proprietário tem o direito de exigir a “desinvasão”, pedir a decisão do juiz sobre o efeito à reintegração de posse, cobrar da Polícia Militar o cumprimento da decisão. Invadiu tem que “desinvadir”. <br /><br /><strong>Comércio - O senhor precisa de mais de 100 mil votos para se tornar deputado federal, mas terá uma infinidade de concorrentes que pulverizarão os votos na região. Qual seria a solução? <br />Nogueirinha</strong> - Acho que já existe uma tendência de distritar o voto informalmente. Gostando ou não gostando, é melhor eu ter um candidato da minha cidade ou da minha região que, mesmo eu não tendo afinidade sei que ele é “daqui”, conhece nossos problemas e eu posso cobrá-lo e fiscalizá-lo, do que na maioria das vezes, vem gente aqui que eu nunca vi na minha vida, leva os votos e o “nosso candidato” acaba perdendo. A solução é os partidos se acertarem e convergirem em nomes que terão reais chances de vencer.<br /></p>
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