Tabagismo


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Quando penso em fumantes, lembro-me do meu pai. Ele fumava cigarros de palha; não tinha dinheiro para esses industrializados. Ainda criança, eu gostava de observá-lo no seu ritual de preparar e pitar seus cigarros. Sentado com as pernas cruzadas, picava o fumo calmamente com o canivete afiado, e as tirinhas minúsculas iam caindo na mão esquerda em concha, a palha entre os dedos. Cortado o necessário, abria a palha, colocava o fumo picado e enrolava cuidadosamente. Por fim acendia o pito, dava uma tragada demorada, retinha a fumaça alguns segundos nos pulmões e então soltava devagar, pela boca e pelo nariz, inebriado. E fumava sem pressa, prolongando ao máximo aquele momento. Um dia ele pediu-me que lhe buscasse um pedaço de fumo na venda do seo Tião. Lá fui eu. O vendeiro me perguntou se era do fumo mineiro ou do goiano. Eu não sabia, meu pai não havia dito. Achando-me muito esperto, pensei: “ele é mineiro e assim...”. “Do mineiro”, respondi. Com o fumo embrulhado, o valor anotado na caderneta, voltei. Quando soube que eu tinha trazido fumo mineiro, meu pai disse que o bom era o goiano. “Que mancada”, pensei. Mas ele não ficou bravo. Passou a mão na minha cabeça e recomendou que da próxima vez trouxesse do goiano. Meu pai...! Cresci vendo a molecada aprendendo a fumar com as guimbas que os adultos dispensavam. A maioria viciou-se. Fumar era sinal de força, de amadurecimento, sei lá. E tinha de tragar e engolir a fumaça sem tossir, senão era taxado de molenga. Depois, na rapaziada, cada um gostava de exibir a marca que fumava. Continental, Minister, Hollywood e outros. Eu, por sorte, nunca dei bola pra cigarro. Não via graça. Nem quis experimentar, embora tenha convivido com familiares e amigos que fumavam. Desde pequeno já achava esquisito uma pessoa soltando fumaça pela boca e pelo nariz. Com o tempo a mulherada passou também ser a fiel consumidora do cigarro. Fez isso querendo mostrar independência e acabou dependente. Ante tantos males que o cigarro provoca, não sei como as pessoas ainda o procuram, não imagino porque os fumantes não fazem das tripas coração para vencer o vício. Quando ouvem que o cigarro mata aos poucos, muitos respondem em tom de gozação: “eu não quero mesmo morrer depressa”. Para as mulheres há argumentos mais do que convincentes para não adquirir o vício ou para livrar-se dele. Além das doenças conhecidas, o cigarro provoca envelhecimento precoce, danifica os cabelos. Haja dinheiro para cremes e xampus. Péssima relação custo-benefício. E tem mais: muitos homens querem distância de mulher que fuma. Além de tudo, o cigarro não é um vício barato. A julgar pela renda média do brasileiro, quem fuma um maço ou mais por dia tem um gasto que lhe subtrai uma parte considerável do salário e que poderia ser usada para coisas sadias. Apesar da enxurrada de informações dos males provocados pelo fumo, muitos jovens e adolescentes, dos dois sexos, teimam em aprender a fumar. Muitas garotas de 15, 16 anos já são viciadas; andam com o maço de cigarros e o isqueiro na bolsa. O fumo deve fazer mal ao cérebro. Muitos fumantes, muitos mesmo, perdem a noção de educação e higiene. Já contei da loura num Honda Civic que, depois de uma longa tragada, aspirando inúmeros agentes cancerígenos, jogou a guimba no asfalto. Dias desses, no Shopping, vi um senhor num Passat alemão fazer a mesma coisa. Outro dia, também no Shopping, vi uma cena que me deixou pasmo. Um homem de meia idade conversava com um casal. Ele estava fumando e após a última tragada jogou a bituca no piso, isso mesmo, naquele piso limpo e bem cuidado, embora houvesse a dois metros dele uma lixeira própria para restos de cigarros. No fórum, vejo pessoas jogar no chão as sobras dos cigarros, e não nas lixeiras colocadas ao longo dos corredores. Fico pensando: se certos fumantes acham que podem fumar em restaurantes, jogar restos de cigarros no asfalto e no piso de ambientes limpos, emporcalhar onde passam, que mais não devem pensar que podem fazer? Você, jovem que quer aprender a fumar, pense melhor. Vicie-se em música, leitura, esportes. Tabagismo não. Se ainda insiste, prepare o bolso. O gasto vai ser cada vez maior. O organismo torna-se tolerante à nicotina e exige sempre mais. No início mantém-se um intervalo razoável entre um cigarro e outro. Que diminui à medida que o tempo passa. Por fim, fuma-se não por prazer, mas por compulsão, um após o outro, às vezes sem intervalo, conforme a tensão da pessoa. Depois, quando surgem os males que todo mundo sabe, haja dinheiro para médicos, remédios, tratamentos. Por fim, mesmo que se consiga livrar da dependência, a pessoa não terá a mesma saúde de antes. O neurologista Ary Marconi Jr., no artigo Tabagismo e Neurologia (‘Jornal de Piracicaba’ de 17/9/04) revela que o hábito de fumar altera os vasos cerebrais e os neurotransmissores, causando doenças neurológicas com seqüelas irreversíveis. Depois de tudo isso, para quem ainda quer ser fumante, só resta repetir o que vive dizendo o Bóris Casoy: tenha uma boa morte. PAULO PEREIRA DA COSTA é 7º promotor de Justiça de Piracicaba.

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