Tal como está a eleição, o eleitor seria levado a escolher entre Alckmin e Lula. Mais do mesmo. FHC exerceu dois governos em nome do projeto, imaginado na origem do PSDB, de dar um “choque de capitalismo” no país, como anunciara, em 1989, o seu então candidato a presidente Mário Covas. Alckmin se propõe nos trazer um “choque de gestão”. Seu nome, porém, não ostenta aquela matriz de Covas nem a articulação discursiva de FHC e tampouco tem o sentido político que possuía a candidatura de Serra. Por sua vez, após combater a globalização e ora estar exercendo seu próprio governo econômico, o PT se apressa a mover o tema do social a partir do Fome Zero e do Bolsa-Família. Aí ancorada, a recandidatura de Lula vem revelar o limite da estratégia petista de alcançar a Presidência com base num símbolo. Lula será candidato bastante autônomo em relação a um PT frágil; e a figura de Lula fica próxima de outros latino-americanos outsiders.
Em 2002, carecendo o PT de teoria sobre o mundo globalizado, Lula evitou o debate, sinalizando que o seu governo não ensaiaria orientação relevante na economia, no sentido que Habermas dava ao neo-reformismo democrático, ao falar, em 1990, da queda do Muro de Berlim e da crise da social democracia (“A economia não é um templo, mas um campo de testes”). Depois, Lula tampouco iria continuar a política econômica do PSDB buscando direção nova. Lula emitiria sinais voluntaristas, o discurso dos seus estrategistas não indo além do pragmatismo. Não iam além da abstração com que em 2002 fora lançada a chapa Lula-Alencar como uma aliança entre o trabalho e o capital. Sem construção política, Lula se moveria segundo tal abstração, como se viu, primeiro, no modo como usou a mídia; depois, quando constituiu o governo hegemonizado pelo PT; e, afinal, quando instrumentalizou os partidos no Congresso (“mensalão”). Não estranha, assim, que, derrotado Serra no PSDB e confinado Lula num círculo de autodefesa em relação à corrupção, a campanha eleitoral se reduza a confronto de acusações.
Tanto o PSDB quanto o PT foram reticentes em relação à valorização da vida nacional e da nossa tradição reformista. Enquanto o primeiro se insulou nos ajustes da globalização, como se fossem uma revolução econômica, o segundo não decifrou a globalização em um registro positivo que lhe indicasse alternativa. A não ser em círculos partidários e intelectuais independentes, na esquerda hegemônica não teve curso uma formulação nesse rumo, não obstante haver instigações do nosso ensaísmo clássico e das teorias sobre a criação do capitalismo nacional, bem como o rico estímulo do “politicismo” acrisolado na resistência do MDB-PMDB à ditadura. Um sentido “politicista” que marcara todo um campo de esquerda e de centro-esquerda e que se configurara pela interseção de dois vetores naquela “frente democrática” nucleada por correntes do centro político: a) a retomada do “pluriclassismo” das “reformas de base” do pré-64; e b) a valorização da democracia política durante a oposição ao regime de 1964. Esse politicismo constituía de uma cultura política difusa, mas atuante, perpassando pontos da Constituição de 1988 com o princípio do “compromisso entre Estado e sociedade”. Após a derrota de Lula em 1989, não só se acentua o afastamento das esquerdas do centro político como cresce, na esquerda social, ao longo dos décadas de 80 e 90, propensão movimentista avessa à política.
A verticalização estreita mais o quadro político, ao tornar insustentável a existência dos pequenos partidos, em particular os de esquerda, que com ela dificilmente cumprirão a cláusula de barreira. Essas esquerdas têm na eleição momento para resistir ao desencanto com a política e ao vôo cego rumo a uma suposta nova hora de movimentismos, para onde empurra a crise do PT. Tais áreas podem readquirir ânimo se se empenharem na reabilitação do mundo partidário. Isso lembra os difíceis tempos do autoritarismo, quando, movendo o que não havia sido destruído daquele mundo, as oposições tiveram a lucidez de considerar a política passo estratégico para ativar a resistência ao regime.
Agora, um fator novo só advirá se um terceiro campo, de centro-esquerda, vier a tonificar as eleições, ensejando uma coalizão chamada a abrir uma alternativa sustentável aos dois últimos tipos de governo. Um campo que interpele nossa diversidade sociocultural como fonte de um novo reformismo e que reúna antigas e novas áreas das esquerdas, correntes com raiz no MDB-PMDB, bem como ambientes intelectuais que vêm interpelando nossos messianismos, tanto o simbólico quanto o de tipo social.
Para tal campo, o mais urgente é contribuir para que haja 2º turno. Sua maior expressão seria oferecer candidatura representativa de uma larga concertação de sentido político-partidário. Não estranha que forças desse tertius ponham a questão da esquerda na eleição; não se pode minimizar o que ocorreu desde a denúncia do “mensalão” e não falar da crise da esquerda. Mesmo não sendo a existência de vastos contingentes de excluídos preocupação exclusiva das esquerdas, estas são indispensáveis para ajudá-los a se incorporarem à vida nacional, neste tempo de globalização e neopopulismos. A eleição torna-se boa hora para fazer pregação a favor da convocação de uma espécie de “Estados Gerais” das esquerdas e áreas de centro-esquerda, convergentes na valorização da democracia e dispostas a pensar em uma nova formação política plural como núcleo potencializador do atual quadro partidário - mas sem substitutivismo nem pretensão de fundar um outro PT.
R. SANTOS é professor da UFRRJ.
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