Apesar de o governo ter comemorado, no início do ano, o crescimento no número de matrículas em todos os níveis de ensino, o quadro atual da educação brasileira não é nada alentador, especialmente quando se sabe que mais da metade dos alunos do país abandona a sala de aula antes da conclusão do Ensino Médio. São cerca de 22 milhões de estudantes sem o diploma do ensino fundamental, antigo 2º grau.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Brasil aparece no 37º lugar em educação de um total de 43 países pesquisados. Ou seja, nossos estudantes têm dificuldades para ler e escrever. Diante disso, como exigir que busquem novos conhecimentos? Como adquirir as tão faladas “competências” para uma qualificação profissional que garanta sua inserção em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo?
Somam-se a esses dados as greves de professores por melhores salários, greves que, no caso das universidades públicas, já estão se tornando uma constante. Há, ainda, o abismo entre as escolas públicas e privadas, comprovado ano após ano pelos resultados dos vestibulares nas melhores universidades.
A precária situação da educação brasileira está, obviamente, relacionada com os investimentos no setor. Investimentos que deixam a desejar. Conforme pesquisa da Unesco, o gasto por aluno brasileiro dos 7 aos 15 anos é de US$ 10 mil, com base na Paridade do Poder de Compra (PPP), medida que compara a capacidade das moedas locais de comprarem os mesmos produtos e serviços. Estamos na frente apenas da Indonésia e do Peru. Outros dados mostram que, se há 40 anos o salário de um professor, categoria tão importante para o desenvolvimento de uma nação, era igual ao de um juiz, atualmente ele recebe por volta de 10% do salário de um magistrado. É possível?
Resumindo, a deficiência no ensino é uma conseqüência da falta de investimentos em educação. Além disto, a evasão escolar atinge milhões de alunos, que são obrigados a abandonar as salas de aula para encarar, ainda muito jovens, o mercado de trabalho. Sem falar na imensa vala que existe entre a educação pública e a privada. Como reverter esse quadro?
A necessidade de conferir prioridade à educação tem sido colocada publicamente por discursos de oradores das mais variadas origens. Sabe-se, por exemplo, das iniciativas governamentais no sentido de um reordenamento desse setor. Entretanto, isso não basta. É preciso mais do que se criar uma nova política para a educação brasileira, com maiores investimentos na capacitação e atualização constante dos professores e melhoria de seus salários; construção de escolas devidamente equipadas, com computadores, laboratórios e bibliotecas e funcionários habilitados para cuidar desses setores; além do gerenciamento para boa aplicação dos recursos.
É preciso repensar conceitos, diretrizes e didáticas para preparar não apenas a formação de novos perfis de mão-de-obra e requalificação, mas, sobretudo, para preparar cidadãos. Para isso, é preciso que uma revolução na educação caminhe ao lado de uma nova política econômica, não-engessada, não-recessiva o que só conquistaremos com uma reforma tributária. Se houver vontade política, e se houver conscientização por parte dos brasileiros, começaremos a ter, enfim, um país com musculatura educacional para enfrentar os desafios da globalização.
MILTON DALLARI é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp
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