Os amantes da música terão uma oportunidade única hoje: assistir a um concerto da Bachiana Chamber Orchestra, sob a regência do maestro João Carlos Martins. Pianista desde os 8 anos, João Carlos é um virtuose em Bach. Já fez cerca de 2 mil concertos pelo mundo. Hoje não toca mais piano. Perdeu os movimentos das mãos e passou por momentos difíceis, é claro. Mas os superou e, hoje, como regente, garante estar na melhor fase da vida. Foi inclusive tema de um documentário, A Paixão Segundo Martins, que conta sua trajetória de luta e superação, tudo por causa da paixão pela música.
A apresentação acontece às 20 horas no teatro do Sesi. A entrada é gratuita, mas é preciso confirmar presença até as 17 horas pelo telefone 3721-1444.
Confira a entrevista exclusiva que o pianista concedeu ao Comércio, ontem, por telefone.
Comércio da Franca - Como é participar de um concerto que já é gratuito, o que pressupõe um público bem variado, e em uma cidade do interior, onde a música erudita não tem tanto espaço?
João Carlos Martins - Há 50 anos, havia um interesse cultural no interior de São Paulo. Eu mesmo participei de vários. Lá pelos anos 70, 80, isso foi decaindo um pouco e agora estamos passando por uma espécie de renascimento. E quem está dando o pontapé inicial nesse processo é o Sesi. Porque com essa série de concertos pelo interior de São Paulo, a instituição está vendo uma forma de o público voltar a ter aquele contato com a música clássica e, ao mesmo tempo, procurando uma forma que não afaste esse público. Porque se você começar com um repertório complicado, vai afastar as pessoas. Então, tem que ir novamente formando o público.
Comércio - E o que vocês vão apresentar hoje à noite para o público de Franca?
João Carlos - Vamos interpretar Mozart, Bach – que em todos os meus concertos têm que estar presentes –, Brahms e uma música de Carlos Gardel. E no finalzinho eu sempre divido minha emoção com o público, tocando um pouco de piano com pelo menos um dedo.
Comércio - Você se lembra de que já esteve em Franca uma vez?
João Carlos - Eu me lembro de todos os meus concertos. São cerca de 2 mil pelo mundo. Estive em Franca em 1958 e toquei muito bem. Depois segui para Barretos.
Comércio - Como foi para você lidar com a perda de movimento nas mãos?
João Carlos - A pessoa tem que observar três coisas na vida: saber quais são aqueles obstáculos praticamente intransponíveis, quais aqueles que são o destino dado por Deus - e aí ninguém consegue transpor -, e uma terceira visão da vida, que é distinguir aquilo que é praticamente intransponível e aquilo que pode ser superado. Quando você consegue ter um discernimento sobre isso, tem que ter força de vontade e espírito de superação para transpor o praticamente impossível. E foi isso que eu fiz a minha vida inteira, depois de perder os movimentos das mãos direita e esquerda e, logo em seguida, me dedicar à regência. Venci o praticamente impossível, que é não ter mais músculos na mão, então, tenho que ter a consciência de ser o destino determinado por Deus e tenho que aceitar, me resignar, esquecer as mágoas do passado e ter esperança no futuro.
Comércio - Desde quando você não toca mais?
João Carlos - Com a mão direita, desde 1998. Com a mão esquerda, desde 2002.
Comércio - O que foi que aconteceu?
João Carlos - Com a mão direita, foi um acidente em um jogo de futebol, que lesionou um nervo, e um assalto na Bulgária. Levei um tiro com bala de ferro e tive lesão cerebral. Com a mão esquerda, foi um tumor.
Comércio - Você chegou a tocar só com a mão esquerda em determinada época. Como foi esse período?
João Carlos - Toquei dois anos só com a mão esquerda e foi um aprendizado legal. Fiz turnê pela Europa, pela China. Mas estou passando agora a melhor fase da minha vida na regência.
Comércio - Esse projeto com a Orchestra Bachiana começou há quanto tempo?
João Carlos - Começou dia 27 de outubro de 2004. E a orquestra está indo excepcionalmente bem. No dia 6 de janeiro de 2007, faz a estréia no Carneggie Hall, em Nova York.
Comércio - Como surgiu essa sua paixão por Bach?
João Carlos - Quando eu tinha 8 anos, comecei a estudar piano e seis meses depois ganhei o Concurso Bach de São Paulo. A paixão surgiu, ficou e acabei sendo o único pianista no mundo a gravar a obra inteira de Bach para teclado. E agora os meus cinco primeiros CDs como regente também são com a obra de Bach. Bach passou a ser meu tio-gêmeo.
Comércio - É verdade que não existiria João Carlos Martins sem Bach?
João Carlos - É verdade. O pior é que pode existir Bach sem João Carlos Martins, mas não pode existir João Carlos Martins sem Bach.
Comércio - Como foi fazer o documentário A Paixão Segundo Martins?
João Carlos - Foi bárbaro. Já está com 1,5 milhão de pessoas que o viram na Europa. E, no Brasil, fiquei muito feliz quando me ligaram da TV Cultura e disseram que 200 mil pessoas só na Grande São Paulo assistiram. Mas é um filme muito triste. Agora já tem um documentário belga que vai entrar em circuito em setembro.
Esse é bem para cima e é sobre a minha vida como regente.
Comércio - Enquanto você tocava piano, já tinha alguma experiência como regente?
João Carlos - Nenhuma. Foi um vôo cego. Seis meses depois que tomei a primeira aula já estava regendo em Londres. Sou metido a besta.
Comércio - É verdade que você costumava ensaiar 20 horas seguidas?
João Carlos - É verdade. Hoje eu não toco, mas estudo bastante. Acordo às 5 horas. Sou obrigado a decorar todas as músicas porque não consigo virar as páginas.
Comércio - Você costumava usar um teclado mudo para estudar?
João Carlos - Eu estudava em teclado mudo quando estava em viagem. Era para manter as 21 notas por segundo que eu mantinha. Eu era uma das mãos mais rápidas para o repertório de Bach.
Comércio - Quem era mais rápido que você?
João Carlos - Prefiro não fazer comparações.
Comércio - Hoje você sente a mesma satisfação que sentia quando tocava?
João Carlos - Sim, a mesma. A gente se reinventa e eu estou passando uma fase muito boa na minha vida.
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