Estado de calamidades


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É certo que os mais recentes acontecimentos em que nos vimos envolvidos nos últimos dias nos trouxeram uma enxurrada de informações que, como sempre, são assimiladas sem quase, ou mesmo, sem nenhuma reflexão. A discussão sobre a segurança pública no Estado de São Paulo continua sendo uma ilha perdida cercada de ignorância, lugares comuns e demagogia por todos os lados. Primeiramente, é preciso ressaltar o fato de que, apesar da (indi) gestão tucana durante doze anos à frente do mais importante estado da Nação, a crise é nacional. Durante anos ouviu-se que o Rio de Janeiro era a cidade mais violenta do País e que os morros cariocas eram o domínio do crime. Filmes como “Rio 40 Graus” e o mais recente “Cidade de Deus”, acabaram por contribuir para esta idéia. Enquanto isso, em São Paulo, acreditávamos que a violência estava distante e que nossa segurança estava bem cuidada nas hábeis mãos do governador. Episódios como o seqüestro da filha do Silvio Santos servem muito bem para ilustrar como o nosso ex-chefe do Executivo paulista estava capacitado para lidar com este tema tão complexo. No dramático reality show em que se transformou a libertação de Patrícia Abravanel, a massa ignorante se transformou na mocinha, que era salva do cativeiro dos malfeitores por ninguém menos que Geraldo Alkmim, seu protetor. Outro aspecto relevante é que, pelo menos no interior, sempre que se falou em políticas de segurança pública, a discussão parou em doação de viaturas para o município e construção de novos presídios. Após crises como esta que vivenciamos, o que se ouve é com relação à pena de morte, redução da maioridade penal, aumento do tempo de encarceramento, etc. Todas estas medidas, tanto “preventivas” quanto “repressivas”, mostram a incapacidade do Estado em lidar com tais temas. Independentemente de o homem ser por natureza bom ou mau, o fato é que ele tem e sempre terá a necessidade de se organizar em grupos para defender seus interesses, sejam eles quais forem. Todos sabemos que é dever do Estado garantir à população saúde, educação, transporte, moradia, alimentação, emprego e outras coisinhas básicas. Uma vez que o Estado não cumpre para com a sua parte, o cidadão se sente automaticamente desobrigado da sua, buscando se organizar de outra forma, mesmo que no crime. Nasce então o Estado Paralelo. Enquanto não formos capazes de discutir penas alternativas para delitos leves, enquanto nossas autoridades policiais não forem mais bem remuneradas e equipadas, enquanto não formos capazes de bloquear os sinais, ou pelo menos, os aparelhos celulares de dentro dos presídios de nada adiantará “endurecer contra os bandidos”, pois estaremos apenas fingindo que quem manda somos nós. E ainda querem construir o CDP em Franca! Definitivamente, não precisamos de mais lideranças de facções criminosas em nossa cidade! CARLOS AMORIM é historiador formado pela Unesp-Franca, professor, escritor e presidente da Associação Centro Cultural Casa do Estudante e autor de A Igreja do Diabo (Editora RGE, 2004)

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