Tenho ouvido pessoas dizer que estão com muita raiva do desgoverno e da corrupção que assolam o País. De fato, ver políticos corruptos absolvidos, bandidos no leme da nação é motivo para insatisfação. Mas raiva não. Este é um sentimento que se deve evitar. Primeiro, porque faz mal à saúde. Vocês acham que esses seres merecem que por eles a gente perca a sanidade? Eu não. Segundo, porque a ira turva os sentidos e tira a lucidez, priva da razão. Não é momento para isso. Na verdade nunca é.
Temos necessidade da serenidade e, acima de tudo, da saúde. Guerreiros doentes não lutam. Melhor dedilhar um alaúde do que encomendar um ataúde. Nosso compromisso é com a ética. Para exigi-la é preciso cultivá-la. Não podemos deixar-nos contagiar pela falta de caráter desses marginais. Nada de ser iguais a eles. A hora é de ação, de mostrar descontentamento, mas sem nos contaminar pela podridão. Prefiro o desterro a corrigir um erro com outro erro.
Diz a Elisa Lucinda: “... se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar. Só de sacanagem! Dirão: Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba. E vou dizer: Não importa, será esse o meu carnaval, confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau. Dirão: É inútil, todo mundo é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal. Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, dá para mudar o final!”
O mel de uns, para outros é fel. O dólar desvalorizado frente ao real cria situação paradoxal. Ganha o comprador de importado, mas certos fabricantes e produtores, sem mercado neste país de dimensão continental, com a pouca exportação, a baixa cotação internacional, amargam prejuízo monumental. Oxalá chegue o dia que, com melhor distribuição da renda, o que aqui se produza, aqui mesmo se venda. Que não haja no Brasil, celeiro do mundo, pessoas com o estômago vazio, o olho fundo. Que produzir não seja atividade de tanto risco, com quase tudo tomado pelo fisco.
Insegurança em São Paulo? Que nada! “Tudo sob controle”, dizem o Sr. Lembo, o Sr. Saulo. Mortes de policiais? Presídios e prédios públicos destruídos? Selvageria? Quem diz? Que heresia, que falta de lógica! A julgar pelo que disse o secretário da segurança pública, pura boataria, mera ilusão de ótica. Medo? Comércio fechado? Desespero? O comandante-geral da PM afirmou que não precisava disso, que houve exagero. O crime cresce, fortalece, se organiza enquanto o Estado enfraquece. É lamentável ver políticos e autoridades que, perante o injustificável, na cara-dura tentam convencer de que o que está acontecendo é improvável, não é o que a gente está vendo.
Sou promotor de Justiça. Ao menos tento sê-lo. Na verdade, grande parte do tempo não passo de um enxugador de gelo. No decorrer dos anos, com o avançar da idade, vendo branquear e rarear o cabelo, sigo uma rotina puxada sabendo que muito do que faço vai dar em nada. Como o capinador que, num calor danado, maneja rapidamente a enxada, vendo crescer atrás de si o mato recém-cortado. Falo, por exemplo, dos inúmeros processos que, mesmo resultando em condenação, acabam atingidos pela prescrição, tornando o trabalho inútil, vão; dos muitos crimes que acabam sem punição. Vejo o descaso do governo com a segurança da população, gastando dinheiro em outras coisas, que nem necessárias são. E pensar que se trata do estado mais rico da federação!
Às vezes perco o rumo. Sem saber bem o que sou e onde estou, tento relaxar, me encontrar, encaixar as idéias, decidir para onde vou. Penso no próximo passo a dar, enquanto ouço Bob Dylan cantar Desolation Row”. A despeito de tudo, nada de desanimar. Deve-se ter sempre uma meta, tentar decolar, alçar vôo. De qualquer jeito, o que vale é viver, caminhar, dançar nesta vida que é um show, pois tudo que acontece, perfeito ou imperfeito, que alegra ou entristece, faz parte deste show, que precisa continuar. “...Faço promessas malucas tão curtas quanto um sonho bom/ Se eu te escondo a verdade, baby, é pra te proteger da solidão/ Faz parte do meu show, meu amor/ (...) Vago na lua deserta das pedras do Arpoador/ Digo alô ao inimigo/ Encontro um abrigo no peito do meu traidor/ (...) Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou/ Vivo num clipe sem nexo/ Um pierrô retrocesso/ meio bossa nova e rock’n roll/ Faz parte do meu show...” (Cazuza).-
PAULO PEREIRA DA COSTA é 7º promotor de Justiça de Piracicaba
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