O jovem francano Fabrício Borges Carrijo, 23, foi um dos 12 brasileiros selecionados para a 18ª edição do “Ship For World Youth Program”, projeto realizado pelo governo japonês que reuniu participantes de 13 países para debater temas concernentes à agenda internacional, tais como educação, desigualdades sociais, paz, meio ambiente, economia, cooperação internacional, etc.
Fabrício foi para o Japão no dia 8 de janeiro deste ano, onde ficou por nove dias. Em seguida, embarcou em um navio com todas as delegações e percorreu os países de Cingapura, Índia, Quênia e Ilhas Maurício. Confira os principais trechos da entrevista concedida ao Se Liga:
Se Liga - Como você foi selecionado para o programa?
Fabrício Borges Carrijo - O processo de seleção se deu através das universidades públicas de distintas regiões do País. No meu caso, fui selecionado pela AREX (Agência de Relações Exteriores da Unesp) por meio de um processo de várias fases, onde foram levados em consideração a participação em projetos sociais, pesquisas, fluência em inglês, conhecimento quanto ao atual cenário local e internacional.
Se Liga - No Japão, quais foram suas atividades antes de embarcar no navio?
Fabrício - Conheci as delegações dos demais países. Participamos, em conjunto, de atividades preparatórias, por meio das quais foram elucidadas as dúvidas quanto ao funcionamento do programa. Além disso, visitamos a Universidade da ONU em Tóquio, onde ocorreu um caloroso debate sobre a instituição e sua efetividade. Cada delegado também passou um final de semana na casa de uma família japonesa, a fim de aprofundar os conhecimentos quanto à intrigante cultura japonesa, tingida pela interação entre o tradicional e o moderno. Fiquei em Fukuoka - no sul do Japão -, local em que fui muito bem recebido.
Se Liga - Como era sua rotina no navio?
Fabrício - Era repleta de atividades. Passava todo o dia envolvido em reuniões de comitês, grupos, cursos, debates, etc. Também havia inúmeras atividades artísticas. Criamos vários grupos musicais, de dança e teatro compostos por delegados de diversos países. A arte foi um fator fundamental na promoção do intercâmbio cultural.
Se Liga - Entre os países visitados, qual mais te marcou?
Fabrício - Cada país, diante de suas peculiaridades, me marcou de uma foram distinta. O Quênia chamou-me muito a atenção pela musicalidade e energia presente naquele país. Apesar dos inúmeros problemas sociais existentes, o povo do Quênia é muito hospitaleiro. Enquanto estava lá, lembrei muito do Brasil, principalmente do descaso dado à nossas raízes africanas. Na Índia fiquei muito chocado ao deparar-me com tanta gente vivendo em condições precárias, caídas nas ruas... Apesar do sistema de castas já ter sido abolido na Índia, as castas ainda permanecem encravadas na sociedade, fato que leva à aceitação da condição social na qual o indivíduo nasceu e resulta numa baixíssima mobilidade social. No entanto, quando eu estava em uma vila, extremamente pobre, visitei uma escola. As crianças ainda mantinham aquele brilho no olhar, ainda eram capazes de dar um sorriso sincero em meio a um ambiente embrutecedor, marcado pela ausência de elementos essenciais para uma existência digna. Na mesma noite, participei de uma recepção juntamente com diplomatas, governantes locais e os demais participantes do programa SWY18. Havia vinhos caros e comidas requintadas. Perdi o apetite!
Se Liga - Qual a principal lição você tirou da viagem?
Fabrício - A viagem proporcionou a troca de experiências, a diluição de preconceitos, a compreensão da importância da cooperação para se lograr mudanças sociais, assim como a percepção de que apesar da diversidade cultural, possuímos todos uma dignidade humana comum. Diante de tantas atrocidades, do individualismo e da indiferença frente às mazelas sociais que permeiam essa era pós-moderna, o programa SWY 18 representou esperança e possibilidade de que é possível transpor a visão fatalista legitimadora das iniqüidades vigentes. Todos os eventos e projetos vivenciados através do SWY 18 agregaram algo de novo e valioso às vidas dos quase 300 jovens participantes. Os meses de janeiro a março de 2006 constituíram uma experiência única e intensa, através da qual vivenciei da alegria à indignação, do sorriso ao choro, deixando evidente que quando as partes estão dispostas a abrir mão da mesquinhez, do orgulho e do egoísmo em nome do coletivo e da cooperação, a coexistência pacífica faz-se presente. O SWY 18 constituiu valioso exemplo de cooperação, convivência e paz.
Se Liga - Quais são seus próximos projetos?
Fabrício - Desejo realizar uma exposição de fotos tiradas ao longo da viagem. Acredito que através da fotografia seja possível incitar as pessoas a refletirem quanto as conseqüências da bolha de individualismo em que a humanidade tem se aprisionado; a importância da cooperação. Enfim, creio que a fotografia - assim como as demais manifestações artísticas - proporcione o questionamento quanto à condição humana. Outro projeto é realizar palestras junto à comunidade acerca das experiências vividas durante o SWY18. Além disso, fui selecionado para participar como líder do grupo composto pelos países do continente americano em um encontro que ocorrerá na Romênia entre os dias 1º e 14 de agosto organizado por uma agência de pesquisas para a paz existe neste país. O objetivo do evento é promover o diálogo e a interação entre as mais distintas culturas, acerca das principais questões que assolam o cenário internacional, tais como paz, cooperação internacional, educação, direitos humanos, etc. Também ocorrerá em dezembro um encontro dos ex-particpantes do SWY18 no Bahrein. Almeja-se dar continuidade aos debates realizados ao longo do programa, analisar as atividades desenvolvidas pelos membros das delegações após o retorno aos países de origem, e buscar meios de canalizar as experiências adquiridas ao longo do programa a fim de se promover transformações sociais. No entanto, há um imenso desafio a ser transposto: a questão financeira! Cada participante dos eventos citados acima terá que arcar com seus custos (passagem, visto, estadia, etc) que giram em torno de R$ 3.800 cada um. Sem patrocínio, será impossível representar nosso País nos referidos importantes ambientes de debate.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.