Natalina Vieira Stalin, 49, mora numa casa simples, na Rua Jornalista Cláudio Abramo, 1.016, no Jardim Aeroporto III. Com sério problema nas pernas e dores constantes, a ex-trabalhadora rural não tem forças para ficar em pé e passa os dias deitada numa cama de casal em um dos quartos da residência.
É nessa posição e com muitas dificuldades que ela cuida de seis netos entre 1 e 11 anos há aproximadamente nove meses. Também foi deitada, com um cobertor cinza sobre o corpo e um pedaço de papel para estancar o sangue de um corte na testa (ela caiu no banheiro anteontem e bateu a cabeça no chão), que contou à reportagem a relação com as crianças e de onde tira forças para, mesmo debilitada, assumi-las desde que foram abandonadas pela mãe, L.
Há mais de dez anos, o pai das crianças (filho de Natalina), o operador de máquinas Júlio César, 29, encontrou L. com um bebê de seis meses debaixo de uma árvore numa noite de chuva, ficou com dó e as levou para casa. Natalina deu abrigo para as duas. Júlio se apaixonou pela mulher e os dois começaram o namoro.
Da relação, nasceram cinco filhos. Durante a gestação de todos eles, Natalina teve importante participação. Como a mãe era viciada em crack, precisava ser vigiada o tempo todo. “L. já tentou doá-los para as pessoas. Tinha medo disso acontecer e ficava de olho na minha nora 24 horas. Ela usava drogas. Até consegui uma vaga numa clínica de recuperação, mas ela não aceitou se tratar”. Quando os filhos nasceram, L. não cuidava deles e quem assumiu as funções de dar banho, levar ao médico, lavar as roupas e dar atenção foi a avó, que na época estava bem de saúde. “Meu filho estava sempre viajando para trabalhar.”
RETORNO
Até o início do ano passado, o casal e as seis crianças moraram no Aeroporto III com Natalina até se mudarem para dois cômodos que conseguiram construir no Jardim Santa Bárbara. Mas o local só foi ocupado pela família de Júlio César por quatro meses. Ele trabalhava para uma construtora e prestava serviço em outras cidades. No meio de 2005, viajou para Mato Grosso a trabalho. Sua mulher aproveitou a ausência, abandonou os seis filhos e fugiu, depois de trancá-los em casa. No dia, os vizinhos acordaram pela madrugada com o choro deles e chamaram a avó.
Natalina, já com problemas nas pernas, levou as crianças para a casa dela e conseguiu a guarda provisória por dois anos. O pai preferiu que ela assumisse os netos. “Ele viaja muito a trabalho e o Conselho Tutelar disse que não poderia ficar distante. Ele acabou preferindo que eu tivesse a tutela dos meninos, porque é novo e talvez arrume outra mulher... Estando aqui, as crianças já têm uma mãe. Eles já me chamam de mãe”, disse a avó.
Eles não têm notícia de L. Apenas ouviram dizer que está em Jeriquara. Natalina prefere não ter contatos. “O amor que ela não deu, eu dou. São mais do que meus filhos. Posso desistir da vida, mas dos meus netos não. Eles são tudo de bom que Deus me deu.”
ESFORÇO
Natalina Stalin assumiu a função de criar os seis netos com amor e sonhos. Um deles é vê-los felizes, fora das ruas, drogas e da violência. “Me esforço para que sejam homens e mulheres de bem, pessoas instruídas”. Ela evita que as crianças fiquem na rua e conta com ajuda de uma mulher, de Júlio César e dos outros filhos para levá-las à escola (quatro estudam na rede municipal), ajudá-las nas lições de casa, nas refeições, banhos e outros cuidados essenciais. “Quero protegê-los”.
E é assim que os meninos se sentem. A mais velha, Odaísa Cristina, ajuda a dar banho nos irmãos, cuidar da casa e prefere a vida de agora. “É triste ver minha avó deitada e doente, mas é aqui que quero morar. Queria saber da minha mãe, onde está, mas continuar morando com minha avó porque aqui é melhor”.
Além dos problemas de saúde, a falta de dinheiro é outra dificuldade da família Stalin. O pai dos netos perdeu o emprego, o avô tem hepatite e com tonturas não pode trabalhar. Resta a Natalina tirar dos R$ 300 de auxílio-doença do INSS e das doações o sustento de todos e os recursos para pagar luz (R$ 55, em média), água (R$ 63), ajudante (R$ 110) e remédios para dor e bronquite. Quando falta medicamento ou comida, a avó não hesita e pede socorro. “Não posso deixar que fiquem sem leitinho”, diz.
Superando as adversidades dia a dia, Natalina vive a expectativa de conseguir a guarda permanente de Odaisa, 11, John Lenon, 8, Eduarda, 7, João Vitor, 5, Vitória, 4, e Maria Alice, 1.
“Preciso procurar um advogado da OAB, mas como estou muito doente e sem dinheiro, não tenho como me deslocar até lá. Vou esperar eu melhorar”.
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