PCC e terror: a semana em que Franca perdeu a inocência


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Diante do terrorismo não há argumentação possível. Ele é sorrateiro e covarde, já que articula-se sem avisar nem admite defensiva. Desumano e truculento, na medida em que retira do cidadão sua liberdade, ameaça sua integridade, desdenha de todos os códigos de convivência e de todas as instituições ao abolir a idéia de Estado de Direito e se impor pela violência. Perverso, uma vez que desestabiliza a todos e incute em cada um de nós o germe do pânico de não sabermos mais onde estamos pisando. A ofensiva terrorista do PCC orquestrada em todo o Estado e com ações igualmente bárbaras em Franca provocou exatamente isso: roubou dos francanos a romântica idéia de que vivíamos numa cidade calma, onde se podia caminhar ou passear de carro tranqüilamente sem sobressaltos; um lugar onde era possível curtir a sesta na calçada, afrouxar a vigilância, conviver, existir de certa forma livre, enfim. Acabou. Franca não é mais a cidade bucólica e amistosa do interior. Aquela em cujas ruas eu, você, todos nós brincamos quando crianças. Esta última semana pode se transfigurar num marco histórico. Como um tapa na cara, constatamos a verdade, há tempos sinalizada pelas manchetes policiais: a de que os longos tentáculos da miséria em seus subprodutos nos apalpam. A de que o descaso - para não dizer alguma conivência das autoridades públicas para com o sistema prisional, o narcotráfico e a venda ilegal de armamentos - nos tornou reféns muito antes do que pensávamos. O poderio impiedoso das facções criminosas nos retirou o que de mais caro ainda preservávamos enquanto coletividade: perdemos o que restava de nossa inocência. Fomos assolados - e isso me parece sem volta - pelo medo, pelo terror de sair de casa sem saber se voltaremos vivos. Um arrastão virtual na última segunda-feira: corre-corre de veículos, pais e mães recolhendo os filhos nas escolas, luzes giroflex em seu vermelho sanguíneo e apavorantes sirenes policiais zunindo pelas belas avenidas da cidade, uma espécie de desespero jamais vista nesses nossos rostos que vêem que a província definitivamente não é mais a mesma. Da nostalgia para a metralha? Nesse esteio, a sádica onda de boatos disseminada pelos corvos de plantão a agravar a situação e fazer soar um inaudito toque de recolher na cidade. Comerciantes fechando apressadamente seus estabelecimentos, farmácias, supermercados e restaurantes de portas cerradas, o transporte coletivo ameaçado. É a face horrorosa e descarnada da violência mostrando os seus dentes, nos fazendo sombra e oprimindo. É o triunfo da bandidagem, é a estetização do mano, a favelização dos costumes, é o aprisionamento do cidadão, a anulação do indivíduo a ameaça do coletivo. A segunda semana do mês de maio nos inaugurou na insegurança. Não gostaria de ser arauto desse l’air du temps, sob a égide do terror, mas, ao que tudo indica, não dormiremos mais em paz. Assim como não terão também paz as famílias das autoridades cúmplices, essa malandragem chapa branca que ajudou a coisa chegar a tal ponto. Se somos reféns do medo, também o são ou serão os filhos e netos dos corruptos que lucram para fazer vista grossa ao crime organizado. Como numa corrente ou num sistema, como na teoria do caos, ninguém está imune.

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