Ele não é titular, não é um príncipe, não tem o maior salário do grupo. No entanto, o hexagonal será mais um passo na realização do sonho de um jogador de basquete do Mariner/Unimed. O pivô Fabião, cujo primeiro clube foi o Espéria, em São Paulo, luta por um título inédito na carreira, o de campeão brasileiro. “E se for por Franca, melhor ainda. Trabalho, como, sonho o tempo todo com isso, com a festa que a torcida fará”, declarou ontem à reportagem do Comércio da Franca.
Fábio Luiz Pires, 28, é um ser humano sentimental. Uma rápida conversa mostrou uma faceta diferente daquela que normalmente passa dentro de quadra. Com a voz baixa, revela como o racismo em um clube paulista quase o impediu de ser jogador profissional. “É coisa do passado”, disse. A simples lembrança da mãe, dona Geralda, e da irmã Rose, das necessidades que elas passavam para mantê-lo em clubes na adolescência o emociona. “Ela teve problemas de saúde, Fiquei mal. Agora tudo melhorou”.
Fabião nasceu em São Paulo, morou em Diadema e viveu na pele a violência das cidades grandes. Fez de tudo um pouco. Lutador de boxe, feirante, segurança em casa noturna. Tudo para ajudar sua mãe e a irmã. “Elas me criaram. Devo tudo a elas”. É justamente a companhia delas que Fabião espera no Póli na próxima sexta-feira. “Mas até lá temos de ganhar nossos jogos”.
Comércio da Franca - Seu pai foi lutador de boxe?
Fabião - Sim. Foi campeão sul-americano e chegou a lutar contra George Foreman, nos EUA. Depois voltou ao Brasil, entrou para a PM e um dia abandonou a família. Eu, minha irmã e minha mãe ficamos morando em um bairro perigoso do ABC.
Comércio - Mesmo assim permaneceu ligado ao esporte?
Fabião - Sim. Já sonhava ser jogador de basquete e minha irmã me levava aos clubes. Também não tinha muita escolha: ou era praticar esporte ou entrar para o mundo das drogas. Se você tem um objetivo na vida, não importa as dificuldades. É arregaçar as mangas e ir atrás. Foi o que fiz.
Comércio - Já foi alvo de racismo em algum clube?
Fabião - Sim. Foi há muito tempo e nem gosto de lembrar. Eu era adolescente e tive um aproveitamento melhor que outros garotos. A técnica disse que eu e mais três atletas seríamos chamados para treinar por um clube do ABC. Só que depois voltou atrás. Fiquei sabendo que era por causa da minha cor. Fiquei muito mal, mas minha irmã me deu força e fui treinar em outro lugar. Acabei me profissionalizando e, anos depois, voltei ao clube para ser campeão da Copa do Brasil.
Comércio - E em relação a torcedores adversários?
Fabião - Isso não. O problema que o futebol tem na Europa (xingar de macaco ou atirar bananas em atletas negros) não existe aqui.
Comércio - Como um menino que sempre sonhou em ser jogador acabou treinando boxe, sendo feirante e leão-de-chácara em boate?
Fabião - O boxe só existiu enquanto tentei agradar a meu pai. Os outros, foi a necessidade. Eu era adolescente, treinava basquete, mas não ganhava quase nada. Eu via algumas coisas faltando. Então eu saía, procurava um emprego qualquer. Ganhava R$ 50 por noite e, no retorno para casa, comprava algo para encher a geladeira. Até hoje dou meu salário para minha mãe.
Comércio - Ela virá ao Póli neste hexagonal?
Fabião - Quero trazê-la na sexta-feira. Preservo muito esse lado família porque o que sou hoje devo a elas.
Comércio - Tem sonhos?
Fabião - Um já realizei. A carreira no esporte me permitiu ajudar minha família. Compramos um terreno e construímos uma casa em São Bernardo do Campo. Agora, quero ser campeão por Franca. Retribuir o carinho que sempre recebi aq ui. Quando cheguei, fiquei inseguro com tantos bons jogadores e com o Hélio Rubens, um dos melhores técnicos do País. Aprendi muito e hoje penso um dia encerrar a carreira aqui. Nada melhor do que conquistar esse título nacional.
Colaborou Marcos Junqueira
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