A voz do sapateiro


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O presidente do Sindicato dos Sapateiros, Paulo Afonso Ribeiro, prega respeito às leis e à ordem estabelecida: nada de agitações, mesmo no comando do maior sindicato de trabalhadores do interior do Estado de São Paulo
O presidente do Sindicato dos Sapateiros, Paulo Afonso Ribeiro, prega respeito às leis e à ordem estabelecida: nada de agitações, mesmo no comando do maior sindicato de trabalhadores do interior do Estado de São Paulo
<p>O presidente do Sindicato dos Sapateiros de Franca, Paulo Afonso Ribeiro, manteve a sua pré-candidatura a deputado estadual, até o dia da consulta prévia, no domingo passado, mesmo contra a vontade de algumas lideranças do Partido dos Trabalhadores, que queriam ver novamente Cassiano Pimentel participando de uma dobradinha com Gilmar Dominici. E, mesmo assim saiu ganhando. Ganhou a preferência dos petistas de Franca ao obter 125 votos, contra 88 de quem ocupou durante oito anos o cargo de vice-prefeito. “Trabalhei mais e por isso ganhei a preferência dos companheiros”, disse Paulinho, que pertence à ala mais à esquerda do partido. A combatividade é sua característica desde que se filiou ao PT, em 1992, e quando se filiou ao Sindicato dos Sapateiros, em 1994. Com poder de articulação e liderança, mostrados facilmente no programa A Voz do Sapateiro, na rádio Difusora AM (1.030 kHz), não foi difícil chegar à presidência do sindicato, em 2000, cargo no qual se mantém até hoje. A próxima meta de Paulo Afonso é tentar a Assembléia Legislativa. É esperar para ver.       </p> <p><strong><em>Comércio da Franca - Quais os motivos que o fizeram lançar a pré-candidatura a deputado estadual?</em><br />Paulo Afonso Ribeiro</strong> - Todos os militantes políticos sonham em chegar a um cargo eletivo e assim contribuir para a categoria e melhorar a vida dos trabalhadores. Como deputado, poderíamos fazer um trabalho diferente. Existe um vácuo na representação de Franca na Assembléia Legislativa e em Brasília. Precisamos também de um deputado federal e de um estadual que debata de verdade, todos os problemas que enfrentamos hoje. E que não só discutam os problemas, mas que também encontrem as soluções.<br /><em> <br /></em><strong><em>Comércio - Na sua opinião, quais são os problemas que precisam ser discutidos?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Franca tem um problema sério de geração de empregos. Temos que discutir a situação do trabalhador rural. Com a colheita do café, são mais 30 mil trabalhadores que virão para a região. Qual a qualidade das condições de trabalho deste lavrador? As cidades da região estão com uma infra-estrutura muito ruim. E não é só Franca, não. Hoje vivemos um momento em que se não houver discussões, e amplas, ficará muito difícil governar. Não adianta achar que por que é o prefeito que pode governar a cidade sozinho com mão-de-ferro ou por que é deputado que vai resolver os problemas. Acredito que não.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Sua candidatura será para representar exclusivamente os sapateiros?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Por ser do setor, tenho estreitas relações com os industriais e com os trabalhadores. Mas nossa campanha será para representar também quem não é ligado ao setor. Não dá para dizer que vamos trabalhar só para o setor calçadista, embora a ênfase maior será para eles. O papel do deputado é de aglutinar, debater e encontrar um caminho para resolver os problemas.<br /> <br /><strong><em>Comércio - É possível ser um aglutinador em um conflito de terras, sabendo que você tem simpatia a movimentos como o MST ou o MLST?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Temos grandes latifúndios e que precisam ser usados para a reforma agrária, mas há leis e, embora não concordemos com algumas delas, precisam ser cumpridas e respeitadas. Os trabalhadores rurais têm seus motivos para brigar pela terra, mas não se pode passar por cima da lei e da ordem. Como deputado, discutiremos o problema com o governo do Estado ou Federal ou com quem quer que seja.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Pelas suas declarações, podemos dizer que o MST e o MLST são movimentos essencialmente político-ideológicos?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Tudo na vida é política. Os Centros Comunitários brigam por melhorias nos seus bairros.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Mas o MST começou lutando só por um pedaço de terra...</em><br />Paulo Afonso</strong> - Tanto o MST quanto o MLST têm tentado fazer os movimentos sem o perfil ideológico de um partido. Em Restinga, por exemplo, o prefeito que apóia o MST, que ocupa a Fazenda Boa Sorte, não pertence a partidos de esquerda. As cidades da região que enxergarem os assentamentos como aliados, e não como adversários, têm mais a ganhar do que a perder.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Você disse que há leis e que precisam ser cumpridas. Mas não é incoerente o líder do MST, João Pedro Stédile, ir a público e apoiar, por exemplo, a destruição de uma fazenda experimental, como a Aracruz?</em><br />Paulo Afonso</strong> - João Pedro Stédile tem cometido alguns excessos. Algumas vezes, há muito estrelismo de alguns líderes quando tomam decisões. Um líder sindical ou de um movimento social precisa ter noção do que está falando. Às vezes, o que se fala pode ser bom ou ruim para o grupo o qual se dirige.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Mas não é incoerência da sua parte dizer que respeita as leis e, ao mesmo tempo, arregimenta sapateiros desempregados e gente que nunca plantou a participarem de invasão de terras na região?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Nós só apoiamos. Não cadastramos ninguém para integrar estes movimentos.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Mas o Sindicato dos Sapateiros os chama para invadir as terras...</em><br />Paulo Afonso</strong> - Só fazemos o chamamento. Apoiamos a luta pela terra e damos força para os trabalhadores se organizarem. Nunca vai se ouvir falar que o Sindicato dos Sapateiros chamou os trabalhadores para invadir uma fábrica e colocar fogo nos equipamentos. Somos contra isso. Ações violentas só prejudicam ainda mais os movimentos sociais.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Sobre sua pré-candidatura a deputado estadual, como observa a sua vitória nas prévias em Franca e ao mesmo tempo conviver com a campanha de Cassiano Pimentel?</em><br />Paulo Afonso -</strong> Tenho um profundo respeito pela militância do Cassiano e pelo que ele fez quando foi vice-prefeito. Fui um dos coordenadores das duas campanhas vitoriosas do Gilmar (Dominici, eleito duas vezes prefeito, em 1996 e 2000) e do Cassiano. E eu acredito que nós vamos resolver este problema (a possibilidade de duas candidaturas a deputado estadual pelo PT em Franca) em mais ou menos 15 dias. O nosso grupo de apoio tem feito todos os esforços para resolver isso. Ter dois candidatos não será bom nem para o PT e muito menos para Franca. Já o resultado da prévia não desabona o que o Cassiano fez para o PT e para a região. Qualquer filiado ao PT pode ser candidato. Mas temos certeza que tudo será resolvido na convenção do PT, no começo do mês que vem.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Será que os votos da região serão suficientes para lhe eleger deputado estadual?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Sim, tanto que ela tem dois hoje em dia.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Mas o Gilson de Souza foi eleito e o Roberto Engler entrou como suplente...</em><br />Paulo Afonso</strong> - Mas é impossível unificar toda a região em torno de uma só candidatura. Há vários interesses político-partidários, econômicos e sociais muito fortes. A região tem potencial para eleger, num universo de cinco candidatos, pelo menos um estadual.<br /><strong> <br /><em>Comércio - Apesar de ter vencido as prévias no PT, seu nome é pouco conhecido fora do partido. Como superar essa barreira?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Essa eleição vai desencadear um processo no qual muitos os que estão mais na mídia serão substituídos. Nossa voz e nosso trabalho são conhecidos pela região. O que precisa ser trabalhado é a imagem. Por exemplo, estive em Itirapuã assistindo a uma partida de futebol do Campeonato Amador Regional e me apresentaram como o Paulo Afonso do Sindicato dos Sapateiros. Uma senhora me disse: “Ah, você é o Paulo Afonso. Escuto o seu programa todos os sábados (Paulo Afonso apresenta o programa A Voz do Sapateiro, na Rádio Difusora AM, aos sábados, a partir do meio-dia). Posso não ser conhecido, mas o trabalho que fazemos à frente do Sindicato é.<br /></p> <p><strong><em>Comércio - Mas em Ribeirão Preto, Araraquara e São Carlos o seu nome nem foi mencionado...</em><br />Paulo Afonso -</strong> E nem queremos fazer campanha em Ribeirão Preto, mas tive 70 indicações em Campinas. É que faço parte de uma corrente do PT (Militância Socialista, mais à esquerda do que o Campo Majoritário) que é disseminada por várias cidades do Estado. Fui votado em Limeira, São José do Rio Preto... Mas não estamos preocupados em fazer campanha fora nas 84 cidades da macrorregião de Ribeirão Preto (estratégia montada por Gilmar Dominici na candidatura a deputado federal). Para isso, é preciso gastar uma fortuna. Não temos dinheiro, e nem quero.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Então, podemos dizer que a campanha do ex-prefeito Gilmar Dominici gastará uma fortuna e terá cabos eleitorais contratados?</em><br />Paulo Afonso</strong> - A candidatura do Gilmar é para deputado federal e, como está consolidada, tem que ter uma estrutura bem maior do que a nossa. Nestas 84 cidades, ele fez pelo menos cinco dobradinhas (parcerias com candidatos locais a deputado estadual). Com isso, a própria estrutura de cada uma das cidades trabalhará para o Gilmar sem ele gastar muito. Eu não tenho como fazer dobradinha com cinco candidatos a federal na região. É diferente.<br /><em> <br /></em><strong><em>Comércio - O presidente Lula distribui o Bolsa Família a milhares de pessoas e 43% delas votariam em Lula. Você acha que este programa social é uma moeda eleitoral?</em><br />Paulo Afonso</strong> - O Bolsa Família não é a solução. Mas, para populações de parte do Centro-Oeste, Norte e Nordeste, o que é pago representa muito no orçamento doméstico mensal. Não são regiões carentes, mas pobres, mesmo. Em todos os aspectos. O programa cumprirá um papel importante neste momento, mas não pode durar para sempre. Teremos que criar condições necessárias para que estas famílias possam obter o próprio sustento. A partir de um certo ponto, no futuro, o governo terá que pensar em uma nova estratégia, com investimentos pesados em educação.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Nestas eleições, você acha que o PT vai se recuperar da crise do mensalão?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Não completamente. Mas o PT tem uma base social muito forte, o que nenhum outro partido teve na história do Brasil.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Há de convir que a base não está nada satisfeita com a cúpula do partido após todos esses escândalos...</em><br />Paulo Afonso -</strong> Com certeza. Inclusive, hoje, nós temos 800 mil filiados em todo o País que estão insatisfeitos com os “Zés” da vida (em alusão ao ex-deputado José Dirceu e ao ex-presidente do partido, José Genoino) como todo mundo. Nós elegemos o presidente Lula para talvez executar um programa mais progressista do que este que está aí. Claro que há insatisfação na base do partido, não tenha dúvida, mas vai sair da crise. Arranhado, sim, mas é natural. Tinha que acontecer mesmo.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Para Karl Marx, o socialismo era a continuação do capitalismo. No Brasil, este sistema não evoluiu o suficiente e, em tese, não se pode falar em revolução socialista. Não é incoerência lutar pelo socialismo no Brasil?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Tenho a seguinte convicção. Os trabalhadores só conseguirão a libertação se nós conseguirmos produzir e vender sem ter um patrão nas nossas cabeças nos explorando. Mas, também, não precisamos nos matar para fazer a chamada Revolução Socialista.<br />Comércio - Você fala em se libertar do patrão, mas ao mesmo tempo é presidente do Sindicato dos Sapateiros, ou seja, é patrão na entidade. Como é conviver com esse dilema?<br />Paulo Afonso - Desde pequeno sempre fui contestador. Mas, hoje em dia, sei muito bem diferenciar o que é competência do sindicato, o que a lei diz e o papel que eu tenho enquanto representante dos trabalhadores. Eu não posso chegar a uma empresa e só porque sou o presidente do Sindicato dos Sapateiros e fazer o que eu quiser. Como eu disse, há normas a serem seguidas. Nós temos limites.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Você não tem medo de ser chamado de pelego?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Não. Nesse tempo em que sou o presidente do sindicato, resolvemos grandes conflitos em empresas e as duas partes saíram satisfeitas. Nos conflitos, há basicamente duas saídas: ou os agrava, sem pensar nas conseqüências, ou se tenta resolver dentro de uma ordem estabelecida. Esse é o papel que tento exercer enquanto estou na militância sindical. Não adianta ir para a porta da fábrica e agitar e execrar o patrão. Afinal, os trabalhadores precisam do salário no fim do mês... Se alguém for para a porta da fábrica xingar o patrão, os próprios trabalhadores vão chamar a sua atenção e dizer: “Não é bem assim, não”. <br /> <br /><strong><em>Comércio - Em Franca, há mais bons ou maus patrões?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Hoje, o patronato evoluiu, mas ainda está longe do ideal. Ele não discute e ainda tem a cabeça fechada. Mesmo hoje em dia, o patrão não deixou de pensar no lucro e na exploração da mão-de-obra, que é a lógica do capitalismo. E também nem todos os trabalhadores são evoluídos, também. Mas, no geral, a relação tem sido boa, principalmente com o Sindicato da Indústria, desde a época do ex-presidente Élcio Jacometti quanto agora com o Jorge Donadelli. Não temos feito greves fora da campanha salarial ou especificamente contra esta ou aquela empresa. Só quando a gente sabe que os salários estão atrasados ou quando há picaretagem. Isso não admitimos em hipótese alguma.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Em Franca, há alguma empresa que, na sua opinião, pode servir de modelo?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Tem, mas não vou citar nomes. Elas não dão trabalho e até nos ligam para consultar sobre as decisões tomadas que vão influenciar a vida dos trabalhadores. Em compensação, muitas não respeitam quaisquer direitos dos trabalhadores, mas as questões devem ser decididas firma por firma.<br /><strong> <br /><em>Comércio - Para você, é possível, algum dia, o patrão tratar o empregado de igual para igual?</em><br />Paulo Afonso</strong> - Isso já acontece apenas em pequenas empresas, que fazem coisas inimagináveis. Grandes corporações, ao contrário, vivem reduzindo custos para manter a competitividade. Com isso, eu acredito que dificilmente vai acontecer em grande escala.</p>

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