O que se entende por liberdade neste mundo incerto e contraditório? Uma coisa é descrever a liberdade e prescrevê-la nos discursos, fenômeno corriqueiro na visão de estadistas impregnados dos valores ocidentais, outra é mostrar à população o gênero de liberdade que efetivamente defina seus interesses e como conquistá-la. As veredas são amiúde tortuosas e imprecisas, visto que o próprio conceito de liberdade aponta para idéias divergentes e dissonantes, conquanto se possa inferir que cada indivíduo e grupo carrega as suas verdades nos discursos e, deste modo, fica difícil definir se há um conceito absoluto orbitando o termo liberdade e quais as suas implicações.
Na visão do filósofo Immanuel Kant, ser livre significa obedecer às próprias leis, que descrevem relações de causa e efeito, ou seja, os homens são livres enquanto movidos à ação, o que, num primeiro momento, relaciona a liberdade à ausência de determinações externas do comportamento. Seu conceito de liberdade, por conseguinte, é associado à propriedade dos seres racionais de legislarem para si próprios, visto que essas leis, se não são externamente impostas, só podem ser auto-impostas. Kant assegura que liberdade e moralidade são indissociáveis porque a legislação racional é naturalmente remetida às leis universais, que, por sua vez, são morais. Portanto, a liberdade moral conquista-se pela adequação da conduta às ordens da razão.
Alguns Estados modernos, que se propuseram detentores do monopólio da força, da decisão e da obrigação de garantir as liberdades, desmoralizam-se frente às denúncias de corrupção, morosidade do poder público e descrédito da população sobretudo na América Latina; as empresas, em seu turno, defendem a redução da intervenção estatal para que os consumidores tenham a liberdade de escolher produtos ou serviços dentre tantas opções no mercado; e as organizações não-governamentais esforçam-se na intenção de garantir que os indivíduos e as sociedades efetivamente cumpram seus ideais de liberdade apartados das amarras ideológicas e coercitivas da ganância.
Há pouco mais de uma década, o ocaso da Guerra Fria e a reestruturação do sistema internacional na direção do unilateralismo norte-americano provocou uma concentração dos valores conquistados pela modernidade ocidental nas mãos de um único país, os Estados Unidos. A polêmica Doutrina Bush, elencada na estratégia de segurança nacional e divulgada a partir de setembro de 2002, é responsável por disseminar uma nova ordem mundial garantida, em último caso, pelo poderio norte-americano e pela prática de ações preventivas onde quer que sejam necessárias. Toda esta ostentação de preeminência se deve ao afã de aquela nação proteger a democracia e as liberdades no mundo.
Liberdade para saciar o egoísmo, o orgulho, a vaidade e os interesses nacionais? Ou liberdade para defender uma idéia política e aproveitá-la em prol do bem comum? Depende do ponto de vista, ou da disposição ideológica e volitiva daquele que empregará o seu direito e obrigação de liberdade para exercer alguma atividade com um fim específico. Não se sabe se há algo mais livre do que o nosso pensamento, porém, seja qual for o caminho que trilharmos ou a apropriação que fizermos do que se entende por livre, as nossas decisões se verão no dilema de assistir à repulsa da lei ou à tranqüilidade da consciência.
BRUNO PERON LOUREIRO é acadêmico do curso de Relações Internacionais na Unesp (Universidade Estadual Paulista). Email: brunopl@terra.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.