Um andarilho, um trabalhador rural e um padre. Três assassinatos. Os três foram mortos de maneira cruel, supostamente pelo mesmo autor, mas a exata relação entre os crimes que chocaram nos últimos dez dias a pacata cidade de Delta (MG), a 90 quilômetros de Franca, ainda é um mistério para a polícia desvendar. Um único elo liga os três crimes: uma confissão realizada na madrugada do dia 28 de abril.
O trabalhador rural Wanderson Luiz dos Santos, 29, e o andarilho Josimar Nunes Gonçalvez, 33, morreram esfaqueados no dia 29 de abril. O último a morrer foi o padre José Cearense. Na terça-feira, 9, a empregada da casa paroquial chegou ao trabalho e se deparou com o corpo estirado na cama com cerca de seis facadas e um vidro de perfume cravado em um corte retangular no peito. Não é só pela maneira cruel como as vítimas foram mortas que o crime ganha contornos cinematográficos: Wanderson e Josimar procuraram o padre e se confessaram poucas horas antes de morrerem.
Por volta das 23 horas do dia 28 de abril, Wanderson decidiu dar uma volta pela cidade e se despediu da mãe, Zilda Alves dos Santos. Ela ainda tentou convencê-lo a ficar em casa, mas não adiantou. “Fui”, teria dito o rapaz para encerrar a discussão já saindo pela porta. “Pensei que ele fosse para a casa de um dos irmãos”. Não foi. Wanderson se encontrou com Josimar, um andarilho conhecido na cidade pelo apelido de “Tiririca”. Por cerca de uma hora e meia o que eles fizeram é só um dos muitos mistérios que marcam a história. Certo é que pouco depois da meia-noite os dois foram visitar o padre e, agitados, fizeram alguma confissão. O assunto, outro mistério. Por volta das 2 horas, se despediram do pároco e nunca mais foram vistos com vida.
SUSTO
Como fazia todos os dias, a dona de casa Maria de Lourdes acordou de manhã na Rua D e foi comprar pão e leite para o café. Ao abrir a porta, se deparou com um corpo banhado de sangue na calçada. Às 6h05, a Polícia Militar de Delta foi acionada para identificar o corpo. Não foi preciso investigar muito. Todos tiveram certeza de que era o Tiririca, a quem dona Maria sempre servia, entre uma bebedeira e outra do rapaz, um prato de comida.
Não houve tempo de absorver o impacto de um morto no meio da rua. Poucos minutos depois, a Polícia foi novamente acionada. Outro corpo, desta vez completamente nu, foi encontrado na Rua Sinomar de Oliveira a poucos metros dali. Era Wanderson. O rapaz morreu com cerca de oito facadas. O assassino abriu um corte retangular no peito da vítima e depositou os testículos no local. Uma lata de cerveja ainda teria sido enfiada em seu ânus.
Assim que soube dos assassinatos, o padre José Cearense correu para o local dos crimes. Em frente à casa de Maria de Lourdes, conversou com os policiais, com as pessoas que se aglomeraram espantadas e se indignou com a violência. Depois foi chamado pela família de Wanderson para rezar pela alma do rapaz. “Meu irmão estava com os olhos abertos, por isso chamei o padre para benzer ele”, disse Cleidson Jaime dos Santos Martins, 26. Como de praxe, o padre cumpriu o protocolo e chamou a mãe e o irmão para uma conversa particular. Contou que teria sido procurado na noite anterior e disse que, na ocasião, Wanderson estava muito nervoso. Foi tudo.
José Cearense não deu detalhes da conversa que teve com as duas vítimas. Não procurou a polícia. Não disse o que teria motivado a confissão em um horário tão incomum.
Na missa dominical, um sermão diferente. Passou longos minutos falando sobre o tráfico de drogas, criticando quem participa do crime, e chegou a dizer, sem nenhum detalhe ou relação direta com os crimes praticados durante a semana, que estava sendo ameaçado de morte. Ao que tudo indica, não era um blefe. Na noite de segunda-feira, o padre foi morto. Com o mesmo nível de crueldade e da mesma maneira misteriosa.
PONTOS
Na cidade, ninguém consegue estabelecer qual o vínculo entre as três vítimas poderia ter gerado a fúria do assassino. O padre José Cearense tinha muitos amigos. Estava sempre rodeado de jovens que freqüentavam a única paróquia da cidade. Alegre e festeiro, estava sempre envolvido em causas sociais. Lutava contra o tráfico de drogas e não se negava a receber ninguém, conhecidos ou estranhos.
A receptividade do padre com todos, especialmente os mais jovens, pode ter facilitado o contato com Wanderson. O rapaz estava havia apenas 11 dias em Delta. Wanderson era uma figura repleta de incógnitas. Criado pela avó em Uberaba (MG), tinha temperamento difícil. Já ficou preso uma vez, mas ninguém sabe exatamente quando ou por quê. “Não gosto de falar da minha vida, da minha coça”, dizia, sempre que perguntado.
Wanderson mudou-se para Delta a convite do irmão, que lhe havia arrumado um emprego no corte da cana. O rapaz dividia a casa com mãe, viúva há cinco meses. Seria uma convivência curta. Wanderson já tinha planos de se mudar para o Guarujá, litoral paulista. Wanderson era um quase nômade. Também não gostava de explicar o que planejava fazer.
Wanderson foi apresentado a Josimar, o Tiririca, pelo irmão. Tiririca vivia sempre pelos inúmeros bares espalhados por Delta. Figura folclórica, era uma personagem em Delta. Pedia bebida e comida pelas casas e tinha a simpatia de todos. Alguns dizem que Tiririca teve mulher e filha, mas ninguém sabe indicar quem seriam. A família do andarilho não foi localizada pela reportagem.
Além da brutalidade, a confissão misteriosa e os segredos que ela guarda unem os crimes. Os três foram mortos com muitas facadas. Tiririca, Wanderson e o padre José Cearense tiveram todo o corpo rasgado. Os dois últimos, partes mutiladas. Nestes dois casos, o assassino abriu o o peito da vítima num corte retangular e colocou objetos dentro. A polícia acredita que as mutilações aconteceram depois da morte, mas não informou o que poderia significar o uso desse objetos. Apesar da violência e das marcas que revelam que as vítimas tentaram resistir, o medo em Delta é grande. Ninguém na cidade ouviu nem viu nada. Pelo menos, é o que dizem.
Colaboraram Divaldo Moreira e Renato Rangel
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