O dono da noite


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Empreendedor, Luciano Carvalho, ou somente Lu, se mantém como poucos no setor de serviços com seus bares e restaurante especializado em pizza feita na panela de ferro: “Tenho que explorar outros mercados que ainda não estão sen
Empreendedor, Luciano Carvalho, ou somente Lu, se mantém como poucos no setor de serviços com seus bares e restaurante especializado em pizza feita na panela de ferro: “Tenho que explorar outros mercados que ainda não estão sen
<p>Enquanto a Avenida Champagnat enfrentava seu declínio, quebrando um ciclo no qual reinou absoluta como o centro da noite francana com bares conhecidos fechando suas portas, pelo menos uma pessoa “nadou contra a maré”. Luciano Carvalho, ou somente Lu, empresário do ramo de bordados, largou tudo, vendeu sua parte para um irmão e foi fazer o que ele havia aprendido muito bem: pizza.<br />Não era bem uma pizza tradicional. Talvez por isso tenha feito tanto sucesso entre os amigos, os primeiros a experimentar a receita aprendida com a avó, feita em panela de ferro. Este sucesso o encorajou a abrir a Sapataria da Pizza. Visão de negócios e dedicação ao trabalho derrubaram preconceitos em relação ao local de instalação do primeiro estabelecimento. “O negócio de que ‘no Centro nada vinga’ não pegou comigo”, diz Luciano.<br /><br />Dois anos depois, inaugurou o Boteco do Lu, mais um sucesso. Neste mesmo tempo, dezenas de bares nasceram e morreram sem deixar marcas na noite da cidade. Há três dias, o empresário inaugurou mais um bar, o Olé Brahma Bier, próximo à Unifran (Universidade de Franca). Quinze mil universitários são clientes em potencial. A atração é o carisma do empresário que enfrenta as noites junto a seus funcionários e freqüentadores. O diferencial: nenhum funcionário de mau humor. O segredo do sucesso: dedicar-se ao máximo ao trabalho. </p> <p><strong><em>Comércio da Franca - Você acaba de inaugurar mais um bar, o terceiro com seu “dedo” em Franca. Justamente num momento em que o setor calçadista, mola da economia local, vive um período de crise. Qual o seu segredo?</em><br />(Lu)ciano Carvalho</strong> - Essa hora em que todo mundo fica reclamando de crise, crise, crise... é a melhor hora para crescer. É hora de acreditar porque é o momento em que aparecem as melhores oportunidades. Então, pintou o local onde era o Kazza (bar próximo à Unifran) com tudo pronto, nós não tínhamos que fazer praticamente nada. Cozinha montada, bar montado... era só ligar a geladeira e decorar o bar e começar a trabalhar. O local tem um potencial fora do normal. Tem um público flutuante diário de 15 mil pessoas (alunos da universidade). Onde você tem um vizinho deste em Franca? Um público bonito, de potencial, gente agradável, de papo bom, enfim, tudo do melhor. Era uma oportunidade que eu não poderia deixar escapar. Foi mais ou menos parecido com o que aconteceu com a Pitcinha. Eu vi o local, achei que seria lá e abri o negócio que deu certo. Antes eu havia tentado montá-la no endereço que hoje é do Boteco (Do Lu). Mas os donos do prédio não botaram fé em mim na época. Disseram que não era isso o que eles queriam. Tinham planos maiores para aquele local. Depois mudou, eu provei que podia e consegui em outro lugar. Daí apareceu outra oportunidade boa.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Mais uma? Foi um caminho fácil, então?</em><br />Lu </strong>- Não digo isso. As oportunidades surgiram e eu as abracei. Mas precisei ralar muito para que tudo desse certo. As pitcinhas, eu comecei como um hobby. Fazia trabalhos paralelos e, após o expediente, os amigos me chamavam para animar as suas festas com as pizzas de panela de ferro. Mas era puxado. Às vezes, emendava o dia - enquanto trabalhava de representante da Vacaro, empresa do grupo Samello - com a noite, quando eu ia para a casa de amigos. Depois fui fazer pitcinhas no Buritizinho (bairro de São José da Bela Vista) e a clientela foi aumentando. Depois fui fazer minhas pitcinhas no posto Mário Roberto. E por último fui para a Fazenda Restaurante Belo Horizonte. Até que resolvi montar a minha pizzaria. Pensei que faria tudo rápido, mas demorei nove meses para finalizar e, enfim, inaugurar a Pitcinha.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Tudo bem, mas o local que você escolheu posteriormente após ter sido preterido no prédio ao lado do Posto Galo Branco foi um tiro no escuro. No centro da cidade, onde poucos estabelecimentos noturnos vingam. Por que a escolha?</em><br />Lu</strong> - Foi uma coisa estranha que me intriga até hoje. Certa vez passei por este casarão (onde está a Sapataria da Pizza) de carro com minha mulher e falei para ela: “Patrícia, é aqui!” “É aqui o quê?” “É aqui que sonhei que nós abriríamos nossa pizzaria”, eu falei. E ela me disse: “Então vá procurar o dono e veja se dá para fechar negócio”. Procurei a pessoa dona do local, mas ela queria um preço alto para vender. Eu não tinha condições, ainda mais que o espaço precisava de uma reforma que ficaria muito cara. Depois de um tempo, o dono quase demoliu o local, mas antes me ligou propondo um acordo. Acertamos e comecei a aprontar o local. Outra coisa estranha que me arrepia até hoje foi que no meio da reforma, uma pessoa passou por aqui e me perguntou: “O que você está fazendo aqui?”. E eu falei que abriria uma pizzaria, ao que a pessoa insistiu: “Não falo sobre isso. Falo sobre coisas que não são compreensíveis”. Fiquei intrigado e a pessoa continuou: “Quem viveu por aqui está muito feliz com a sua presença”. A partir daí eu tive a certeza de que o local não podia ser melhor.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Ao longo dos três anos que está aqui, você progrediu, abriu outro estabelecimento, o Boteco do Lu, e agora inaugura o terceiro empreendimento, o Bar Olé Brahma Bier. Certamente, você, como ninguém, tem uma percepção diferente da realidade calçadista. Consegue sentir a crise no setor ou isso não passa de choradeira do empresariado?</em><br />Lu</strong> - Não é choradeira, não. O cenário de dois anos atrás é outro hoje. Para se ter uma idéia, naquela época, quando completei um ano de inauguração, mais ou menos, a TV Globo fez aquela reportagem na qual eu afirmava que só tinha recebido um cheque sem fundos no período. Hoje não é mais assim. O número de cheques sem fundos aumentou. Tem também a mudança de público. Antes, eram raros os dias nos quais a gente não atendia ao menos uma mesa com estrangeiro. Empresários traziam uma, duas vezes por semana clientes exportadores para jantar aqui. Naquela época, para receber melhor os clientes, contratei uma escola de idiomas e fechei uma sala só com meus funcionários para que eles aprendessem a falar outra língua, o inglês, por exemplo, e melhorar o contato com os clientes, sem embaraços. Hoje, é raro ver um cliente de fora. Tudo isso é reflexo da crise, sabemos disso. O setor precisa sair dessa. É melhor para os empresários e para nós do setor de serviços.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Abrir um terceiro empreendimento foi a solução para driblar tempos de crise?</em><br />Lu </strong>- É, claro. Tenho que explorar outros mercados que ainda não estão sentindo a crise. Os jovens que curtem sair à noite, bater um bom papo, se divertir, são clientes em potencial do novo bar. Alguns me perguntam: “Lu, isso vai dar certo?” Claro que vai dar certo. Só estou apostando porque eu sei que vai dar certo. O público está aí, o resto depende só da gente. Eu sou bastante positivo.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Antes de começar com o ramo da pizza feita na panela de ferro, você fez o quê?</em><br />Lu</strong> - Meu pai lidava com máquinas de costura e eu trabalhava com ele. Éramos representantes de uma firma alemã de máquinas. Tínhamos uma de bordar na loja e eu tentava vender esta máquina de qualquer jeito, mas ela era muito cara. Aí, eu propus ao meu pai que a comprássemos e começássemos a prestar serviço de bordar. “Certeza que vai dar certo”, eu disse. Ele aceitou e lá fui eu para a Alemanha aprender a utilizar a máquina. Em seis meses, pagamos a máquina, que tinha prazo de um ano para ser quitada. Juntamos mais dinheiro e compramos mais uma, e outra. Não dávamos conta de tanta encomenda. Tudo porque eu propus também para a Samello que fizesse o seu logotipo bordado de seu dockside. Cheguei a prometer que se não desse certo eu assumiria o prejuízo. Aí, eles (donos da Samello) levaram a idéia para a Couromoda e estouraram de vender e lançaram, novamente, moda no mercado. Todo mundo queria seu nome bordado no sapato.<br /><em> <br /></em><strong><em>Comércio - Então, seu tino para os negócios aflorou antes da gastronomia no setor calçadista. Essa queda para os negócioso basta para o sucesso?</em><br />Lu</strong> - Acho que foi um lance de ser arrojado. Nessa época eu dedicava 24 horas por dia ao bordado. Me oferecia, apresentava os serviços, fazia todos os bordados de amostra. Queria entregar os pedidos, concluir os trabalhos, tudo em tempo. Acho que foi a dedicação da família que fez o negócio andar; dedicação ao negócio que o transformou no que é hoje. Só não sei até quando meu corpo vai agüentar. É uma vida sacrificante.<br /> <br /><strong><em>Comércio - Quantos funcionários você mantém para tocar os três bares?</em><br />Lu</strong> - Acho que uns quarenta. Sem contar os empregos indiretos, como segurança. De músico, pelo menos uns trinta artistas tocam na Pitcinha e no Boteco por semana. É uma loucura. Todos os dias tem música ao vivo. De quebra, para arrematar, todos os que trabalham comigo têm que ter bom humor. O cliente não sai de casa para ver cara feia.</p>

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