Pouco mais de quatro horas após a invasão da Fazenda Nova Mata, em Cristais Paulista, o acampamento dos mais de 200 sem-terra que participaram da ação na madrugada de sábado já estava montado.
São dezenas de barracas, construídas com bambus e cobertas com lonas plásticas. A previsão do MLST (Movimento pela Libertação dos Sem-Terra) é que o número de acampados dobre até o domingo. Até agora, o Grupo Samello, dono da propriedade, não se manifestou sobre a invasão.
Por volta de 6h20 de ontem, os sem-terra realizaram uma assembléia e decidiram levantar os barracos. Como muitos eram inexperientes, os “veteranos” davam instruções a todo momento. O coordenador do grupo, Vilmar da Silva, orientou que os barracos tivessem pelo menos 12 metros quadrados e respeitassem uma distância de 1,5 metro entre eles “para não atrapalhar a passagem”. Outra orientação foi que, ao escutar o barulho de rojões, os acampados parassem o que estivessem fazendo, apanhassem suas ferramentas e corressem para a porteira: era sinal de problemas.
Na noite de sexta-feira, os próprios líderes admitiram que escolheram a Fazenda Nova Mata apenas como ponto estratégico para novas invasões na região. “A ocupação dessa propriedade vai gerar muita repercussão”, disse o coordenador do grupo, Jean Gomes, à reportagem do Comércio. Na manhã de sábado, o discurso era outro. Muitos chegaram a dizer que não pensam mais em deixar o local. O clima entre os sem-terra era de triunfo. “Encontrei o meu lugar”, disse uma mulher que afirmou ser sapateira desempregada, mas preferiu não se identificar.
Embora a liderança tenha aparentemente mudado de idéia, a presença do Sindicato dos Sapateiros deixa claro que o objetivo da invasão não é apenas encontrar áreas improdutivas para que os sem-terra tenham onde plantar. “Há vários acordos trabalhistas em aberto. Estamos indignados com a atitude da empresa”, disse o sindicalista Élcio Luiz da Silva. O Sindicato chegou a conclamar os funcionários demitidos da Samello para engrossar o movimento.
Na Fazenda Nova Mata há muitos eucaliptos e vastos campos gramados, também existem plantações de café e soja e são criadas dezenas de cabeças de gado. O presidente do Grupo Samello, Miguel Sábio de Mello Neto, em recente entrevista ao Comércio, descartou desfazer do patrimônio das empresas. Na ocasião, garantiu ainda que todos os acordos trabalhistas feitos pela empresa serão cumpridos. Ontem, sábado, o empresário foi procurado pela reportagem para dizer quais medidas tomará depois da invasão, mas não foi encontrado. Um funcionário da fazenda disse que ele está fora da cidade.
POLÍCIA
Por volta de 8h15 de sábado, a Polícia Militar de Cristais Paulista compareceu à Nova Mata. A viatura chegou até a porteira, mas não entrou. Os sem-terra não permitiram. Os próprios PMs reconheceram que não havia motivos para conflitos. “Eles estão tranqüilos. Até o momento não há qualquer tipo de delito que seja de nossa alçada. A não ser que haja tumultos”, disse o sargento Estevam.
O administrador Antônio Galvão Borges, 63, disse que nem percebeu a invasão. “A casa em que eu moro fica longe de onde eles estão, nem vi eles entrarem”. Borges só ficou sabendo da ação por meio de um diretor da MSM, empresa do Grupo Samello, que ouviu entrevista ao vivo com os ocupantes pela rádio Difusora, momentos após a invasão.
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