Como vai o Português?


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O índice de aprovação no exame da OAB tem sido baixo. Creio que isso em parte se deve ao fato de que, além de não se dedicar aos estudos como deveria, a maioria dos alunos de Direito lê pouco, nem tem o hábito de consultar dicionários. Esse desinteresse pelas letras é causa de um sério problema: escrever mal e errado. A língua portuguesa é riquíssima. A maior parte das palavras tem mais de um sinônimo. Sempre há um termo que possui o significado do que se quer dizer. Causa estranheza que numa área das ciências humanas em que se exerce a profissão através da palavra escrita ou falada, das idéias, da argumentação, não haja estímulo à leitura. Não só de livros jurídicos, mas de outros também, como os romances clássicos, nacionais e estrangeiros, as obras dos grandes pensadores. Não gosto de livros jurídicos, salvo raras exceções. Leio-os por dever de ofício. Outros, porém, por prazer. A pouca leitura não é um mal só dos estudantes de Direito, mas do brasileiro em geral. Resultado disso são textos pobres, com erros básicos de concordância, pontuação, grafia, excesso de palavras repetidas, etc. É comum encontrar erros em textos de grandes jornais, revistas, livros; ver comunicadores, narradores esportivos, apresentadores de telejornais falar errado. A palavra que mais se usa de maneira equivocada é o pronome “qualquer”. Virou regra seu uso no lugar de “nenhum”. Assim, por exemplo, diz-se “não houve qualquer interessado em comprar a casa”, “não tenho qualquer dúvida”. Se se quer dizer que ninguém se interessou pela casa, se não há dúvida, o correto é “não houve nenhum interessado...”, ou simplesmente “não houve interessado...”, “não tenho nenhuma dúvida” ou “não tenho dúvida”. Deve-se empregar o pronome “qualquer” em outras situações, como: “qualquer menino pode tornar-se um grande homem”, “qualquer pessoa pode aprender a ler e escrever”, “qualquer funcionário pode chegar à gerência”. A crase também é colocada indiscriminadamente quando há regras próprias para o seu uso. Fui à agência central dos Correios e, enquanto aguardava minha vez, observei os quadros de orientação sobre os guichês de atendimento. Há crase para dar e vender. “Sedex 10: guichês 2 à 4”. Ora, a primeira regrinha sobre a crase é que se a emprega antes de palavra feminina. Há exceções: “entreguei o carro àquele senhor de terno”. Convenhamos, é desolador ver erro de português numa das empresas públicas de mais destaque no país. Há mania de se usar palavras desnecessárias. Observem nas transmissões de futebol. Quando o narrador pergunta ao comentarista se o atacante estava impedido, se tal lance foi legal, se a jogada foi normal, a resposta: estava “completamente” impedido, o lance foi “totalmente” legal, a jogada foi “absolutamente” normal. Ora, ou o atacante está impedido ou não, ou o lance é legal ou não, ou a jogada é normal ou não. O português dispensa tais palavras nesses casos. Mais uma: o uso de vocábulos genéricos para referir-se a coisas específicas. Não se deve escrever “comprei um veículo VW Gol”, mas um “automóvel” VW Gol; nem um veículo Kombi, mas uma perua Kombi; uma picape Saveiro, um caminhão Scania, etc. Veículo é genérico, pode referir-se a muitas outras coisas. O uso é certo se para evitar repetição de palavra, como “quebrou o vidro do carro, entrou no veículo e subtraiu o rádio”. Outra palavra muito utilizada erradamente, mormente nos meios policiais, é “elemento”. Diz-se tal termo para referir-se a pessoa, indivíduo, homem, mas é incorreto. Não se deve dizer “há um elemento armado na Rua do Porto”, mas há ‘uma pessoa’, ou ‘um homem’, ou ‘um indivíduo’. “Elemento” tem vários significados, mas nada a ver com pessoa. Outro erro comum é o emprego de palavras estrangeiras quando há no português vocábulos correspondentes. Deve-se escrever “boate” e não “boite”, “toalete” e não “toilette”, “picape” e não “pick-up”, etc. Ainda, agrega-se equivocadamente o pronome oblíquo ao particípio passado. Exemplo: “a Polícia já havia detido-o” quando o certo é “...já o havia detido”. O pronome acompanha o verbo, não o particípio. Portanto, “tenho-o mantido bem” em vez de “tenho mantido-o bem”, “eles tinham-se encontrado” e não “eles tinham se encontrado” ou “...tinham encontrado-se”. Tem mais: o abuso do gerúndio. “Posso estar passando aí para conversarmos?”, “posso estar ligando para o senhor novamente?” em vez de “posso passar...?”, “posso ligar...?” Um termo também empregado equivocadamente é “mesmo”. É comum usá-lo no lugar do pronome pessoal. Exemplo: “procurei minha filha e a mesma estava na lanchonete”; o correto é “ela estava na lanchonete”. “Mesmo” é usado em outras situações, como, por exemplo, “o ladrão que furtou meu auto-rádio é o mesmo que subtraiu o seu” Por fim, um alerta: cuidado com certas palavras que têm significado muito diferente do que se imagina. “Patético” faz pensar em algo ridículo. O Aurélio, a Larousse, entretanto, revelam que é o que produz ou denota forte emoção; trágico; sinistro. Assim, aos livros. Por qual começar? Sugiro “Dom Quixote”. Dicionário sempre à mão. PAULO PEREIRA DA COSTA é 7º promotor de Justiça de Piracicaba.

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