O que não foi dito sobre a greve da Anvisa


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A mídia tem noticiado com muito destaque a greve dos funcionários da agência nacional de vigilância sanitária - ANVISA O fato de uma categoria utilizar-se do direito de greve para reivindicar seus direitos ou mesmo melhorias em suas condições de trabalho é um ato digno da democracia, devendo, portanto, ser respeitado. Contudo, o colapso em alguns setores da indústria, do comércio e da prestação de serviços de saúde tornou-se o ponto-chave no processo de negociação e de suspensão, ainda que temporária, do movimento grevista. O que me chama a atenção não é a greve que se arrasta há mais de 60 dias, nem o caos em que se encontram os serviços de saúde, desprovidos de estoques reguladores de emergência, afinal de contas, estratégia de trabalho nunca foi o forte da maioria dos gestores públicos. O que me irrita. O que me deixa perplexo. O que me faz pensar “que País é esse?”, é o fato de que ninguém, absolutamente ninguém deu às conseqüências da greve o verdadeiro nome: Incompetência da gestão pública de políticas de desenvolvimento nacional do setor farmo-químico e de equipamentos para saúde. O que isso significa? Que somos reféns do mercado. Reféns do mercado de medicamentos e equipamentos importados. Reféns da ausência de planejamento estratégico, o que coloca em risco milhares de vidas humanas que precisam, por exemplo, de hemodiálise. Como pode um País como o Brasil não possuir em território nacional uma empresa que produza, por exemplo, os capilares utilizados no processo de hemodiálise? Como pode o país “dono do próprio nariz”, como disse Lula, cancelar transplantes por falta de um cateter? Que nariz é esse de que somos donos? Do Pinóquio, so pode ser. Algumas indústrias farmacêuticas chegaram a suspender linhas de produção de medicamentos de grande interesse para a saúde pública por falta de matéria-prima, comprada e estacionada em algum porto ou aeroporto deste País. O que ninguém falou sobre as conseqüências da greve é que ela revela a fragilidade da dita “autonomia nacional” e que ela, a greve, foi capaz de expor as vísceras de um País sem a menor preocupação com sua soberania e tampouco com sua sobrevivência por pouco mais de 60 dias. Será preciso lembrar aos nossos homens públicos que, por ocasião da guerra das Malvinas, nosso vizinho e rival no futebol sofreu as conseqüências dos embargos e do desabastecimento até de antibióticos? Será preciso lembrar? Ou será preciso falar para que eles saibam pela primeira vez? Um país que quer ser dono do próprio nariz precisa antes que qualquer coisa planejar políticas públicas de saúde a curto, médio e longo prazos. Um país que quer ser dono do próprio nariz precisa ter condições de sobreviver diante do caos provocado por uma categoria profissional que legitimamente defende seus direitos. Um País que quer ser dono do próprio nariz precisa saber que para ser dono é preciso cuidar, dirigir e não apenas dizer que é. ALEXANDRE LEONEL é farmacêutico e membro do Conselho de Leitores do Comércio da Franca.

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