O ex-militar e nacionalista Ollanta Humala chegou em primeiro lugar nas últimas eleições presidenciais peruanas e aparece como favorito a vencer também o segundo turno que será disputado nos próximos dias. Tentar compreendê-lo politicamente é um exercício intelectual que desafia os referenciais teóricos que matizam a disjuntiva esquerda versus direita. Ao mesmo tempo, somente é possível começar a entendê-lo a partir de um grande trabalho de análise a respeito da história peruana recente. Assim, Humala seria uma resultante abstrata e heterogênea da história política peruana do século XX.
Isto porque, em seu discurso, existem referenciais muito diversos, sobrepostos e desconexos. Um deles está relacionado às idéias advogadas pelo movimento historiográfico-político que reverberou na esquerda peruana das décadas de 1970 e 1980: a utopia andina, representada principalmente pelo historiador e ensaísta Alberto Flores Galindo. Isso fica evidente ao recapitularmos a pequena história política de Humala e registrarmos que o movimento dos ‘etnocaceristas’, fundado por ele, valoriza, como noção de autonomia e austeridade, uma construção imaginária do Peru fundamentada na figura do andino e no seu desvencilhamento tanto do domínio colonial europeu quanto da influência imperialista norte-americana.
A confusão aumenta bastante quando registramos também que o Partido Nacionalista Peruano, que apóia Humala, procura demonstrar, de forma ambígua, suas relações de continuidade e herança com figuras emblemáticas da história política do país, como Victor Raul Haya de la Torre (fundador do Partido Aprista), José Carlos Mariátegui (fundador do Partido Socialista Peruano), o General Velasco Alvarado (general-ditador peruano do final da década de 1960) e o Presidente Andrés Avelino Cáceres, que conduziu o Peru em sua famosa Guerra do Pacífico contra o Chile entre 1879 e 1884.
Seria importante mencionar que esses líderes políticos, aos quais Humala reivindica uma ligação direta, são bastante diferentes entre si, sendo muito complicado uma comunhão entre eles para além da dimensão mitológica que as diversas memórias históricas criaram no país andino.
Mariátegui e Haya de la Torre, por exemplo, companheiros na Reforma Universitária no Peru, em 1919, como é sabido, romperam suas alianças ideológicas e políticas ainda na década de 1920, durante a polêmica indigenista. O divórcio entre eles permaneceu sem solução até a morte de Mariátegui em 1930. Depois disso, marxistas e apristas raras vezes caminharam lado a lado na política peruana.
Nesse cenário de referências póstumas cabe lembrar que Velasco, ditador de esquerda, por sua vez, ficou conhecido como um dos principais perseguidores do aprismo no Peru. Sob seu regime, por exemplo, Luis Alberto Sánchez (figura símbolo e histórica da APRA) foi preso e proibido de exercer suas funções profissionais.
Ainda dentro das diretrizes de sua campanha, Humala incorporou ao seu discurso eleitoral a bandeira bolivarista da união continental visando, na realidade, estabelecer um elo histórico entre Bolívia e Peru para a formação de um Estado único que se constituiria como uma espécie de restauração contemporânea do Império Inca. Em relação a esse posicionamento, podemos ver, mais uma vez, os referencias levantados por Ollanta Humala se confundindo e se mesclando. De um lado o bolivarismo, um elemento recorrente na tradição e no pensamento político latino-americano; de outro a união entre Bolívia e Peru, um referencial presente na corrente da utopia andina e dos movimentos de esquerda neoindigenistas das décadas de 1970 e 1980. Condensar essas duas perspectivas em uma só seria, a nosso ver, promover um o encontro político-discursivo impossível, ou impensável, entre Bolívar, Haya de la Torre, Mariátegui e Alberto Flores Galindo.
O certo é que Humala tenta convergir em si todas as tradições e mitos políticos que ressaltam os ideais de patriotismo e nação no Peru do século XX, ainda que opostas entre si. No seu discurso estão latino-americanismo, indigenismo e utopia andina, regados por uma forte tradição autoritária militar que marcou também o Peru no século XX. Simbioses como esta costumam, em geral, surpreender negativamente e seus resultados podem ser catastróficos.
ALBERTO AGGIO é professor livre docente de História da América da Unesp/Franca e MARCOS SORRILHA PINHEIRO é mestre e doutorando em História na Unesp/Franca.
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