<p>O médico José Lancha Filho está prestes a completar um ano à frente da Associação Atlética Francana. Ele próprio reconhece o fracasso do clube no último Paulista da Série A-2. Lancha explica que o objetivo era ser um dos quatro melhores, o que não ocorreu, por causa da escolha de Sousinha por parte de seus diretores de futebol como treinador da equipe. Mesmo assim, nega haver um racha em sua administração. Mais surpreendente é o fato de admitir que o futebol dá prejuízo certo. Para ele, sem categorias de base e associados, um clube tem dificuldades para sobreviver. Ainda mais a Francana, dona de uma dívida superior a R$ 1,4 milhão. Mesmo assim, para ele, a solução não é vender patrimônio, tampouco extinguir o Departamento de Futebol do clube. Mas sim muito trabalho. Algo, segundo suas palavras, com o que os últimos presidentes não se preocuparam tanto. Sobre o futuro, ele foi enfático ao dizer preferir que o clube dispute a Copa Estado de São Paulo neste segundo semestre. “O custo para jgoar o Paulista Sub-20 é praticamente o mesmo. Por isso a preferência”. Lancha ainda revelou ter a intenção de antecipar as eleições para novembro deste ano. E no mesmo instante se declarou candidato à reeleição. </p>
<p><strong><em>Comércio da Franca - Não há racha na diretoria por causa da contratação do Sousinha (primeiro técnico da Francana no Paulista deste ano)?</em> <br />José Lancha Filho</strong> - Absolutamente. Os diretores de futebol (Pedro José e Telmo Barbosa) têm liberdade para trazer idéias e concretizá-las. Trabalhamos solidariamente. </p>
<p><strong><em>Comércio - Mas o senhor classificou a vinda do Sousinha como um erro. Não receia que eles contratem outro treinador que não dê certo? <br /></em>Dr. Lancha</strong> - Não. Caso consigamos uma vaga na Copa Estado de São Paulo, nosso treinador provavelmente será o Marcelo Veiga, que trará toda uma equipe técnica com ele. Para nós, ele deixou uma impressão muito boa. Hoje, seu nome é unanimidade entre nós.</p>
<p><strong><em>Comércio - Se não der certo, há outros nomes para o cargo?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Quais nomes eu não sei. Namoramos a possibilidade de ter o Catanoce e outros do interior - a diretoria teria sondado Wantuil Rodrigues e Pinho. Como estamos presos à confirmação da Federação Paulista de Futebol para saber se disputaremos a Copa Estado, pois teremos de ser convidados, vamos adiando esta definição. </p>
<p><strong><em>Comércio - E o dinheiro?</em> <br />Dr. Lancha</strong> - Dependemos também da obtenção de um patrocínio, pois não podemos passar o segundo semestre da forma como foi o primeiro. Nós, da diretoria, bancamos 60% (R$ 60 mil) da despesa mensal do clube na Série A-2 (o restante foi repassado pela prefeitura através de uma fundação). A despesa é alta e todos os jogos no Lanchão deram prejuízo. </p>
<p><strong><em>Comércio - Como arregimentar apoio ao clube?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Baseamos nossa atuação em duas palavras: trabalho e honestidade. Creio que a partir do momento que a Francana ganhar credibilidade, muitos apoiarão. </p>
<p><strong><em>Comércio - Isso leva tempo. O clube tem problemas urgentes e dá prejuízo no dia-a-dia, como o senhor mesmo disse. Aliás, o pequeno número de torcedores no Lanchão não é falta de credibilidade em relação ao seu trabalho na Francana? O que faltou para conquistar a torcida?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Faltou aos jogadores dentro de campo fazer a parte deles conquistando vitórias, que é o que motiva a torcida. O torcedor quer subir de divisão e disputar título. Isso leva gente aos estádios. Agora, o que levará gente ao Lanchão é o festival de prêmios. A iniciativa deverá resultar em caixa para o clube. Para o primeiro foram vendidos 6 mil bilhetes. Neste segundo, marcado para a semana que vem, esperamos entre 12 e 15 mil pessoas. No terceiro, serão 20 mil participantes e a região de Franca deverá estar envolvida. Nossa programação inclui oito festivais até dezembro. </p>
<p><strong><em>Comércio - Quem organiza o festival é um empresário. Quanto a Francana ganha?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Cerca de 37% do lucro líquido. Isso significará caixa para que o clube dispute campeonatos em 2007. </p>
<p><strong><em>Comércio - Como pagar a dívida da Francana? E qual seu valor?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Fora o devido à prefeitura que foi renegociado em 240 meses, a Francana deve entre R$ 1,4 e R$ 1,6 milhão. Para pagar, só com o tempo. Ou então, quando formarmos e vendermos jogadores. </p>
<p><strong><em>Comércio - Muito se falou em venda de patrimônio para se resolver os problemas financeiros da Francana. O senhor é favorável?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Essa idéia não me é simpática. Prefiro fazer um comodato com uma empresa para que ela construa no terreno da Francana, existente no Centro, um prédio qualquer. Com isso, nos pagaria uma renda mensal. Comércio - A Francana tem quantos sócios?<br />Dr. Lancha - Cerca de 230. No auge, a Veterana teve 4.300 associados. </p>
<p><strong><em>Comércio - Porque essa queda brutal? E como fazer se não há sócios e o clube não tem caixa. Porque esse distanciamento do clube em relação a sua própria comunidade?</em><br />Dr. Lancha</strong> - O francano não vai mais em clubes. Todos se dirigem a chácaras, balneários da região. Não há freqüência. Além disso, a parte social do clube vem sendo tratada com descaso. Algumas diretorias deram ênfase ao futebol e descuidaram da recreativa. Hoje, reformamos os banheiros, consertamos o toboágua e toda a parte elétrica, pusemos a sauna em funcionamento, reabilitamos os jardins, entre outras melhorias. Por isso, pensamos que podemos aumentar o número de sócios entre as camadas B e C da população de Franca. O exemplo nós vemos aos finais de semana. Cobramos R$ 5 para qualquer um freqüentá-lo e a renda não é desprezível. </p>
<p><strong><em>Comércio - Da forma como o senhor coloca, o futebol é um problema.</em><br />Dr. Lancha</strong> - E é um problema sério. O futebol dá prejuízo para o clube. Nós sentimos isso. Se tivéssemos dois mil associados pagando R$ 25 por mês, teríamos R$ 50 mil em caixa. Metade pagaria as despesas da recreativa e o resto seria usado no departamento de futebol. Esse problema acontece em outros clubes. O Juventus já teve cem mil sócios e hoje não passa dos 12 mil. </p>
<p><strong><em>Comércio - A solução não seria fechar o departamento de futebol?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Não. O futebol é a razão de ser, o coração e a alma da Francana. Nós temos é que viabilizar o futebol. <br /></p>
<p><strong><em>Comércio - Como isso é possível?</em><br />Dr. Lancha</strong> - O que a Francana precisa é de um trabalho de base alicerçado na construção de um Centro de Treinamento. A partir daí teríamos meninos treinando e poderíamos vendê-los. Os outros disputariam os torneios da Federação Paulista sem que tenhamos de correr atrás de atletas. </p>
<p><strong><em>Comércio - Para isso, a Francana necessitaria de um dinheiro que o clube não tem. Além disso, ela não tem sócios, nem credibilidade. Todas as soluções comentadas dependem de tempo para ser implementadas e disposição para que dêem certo. O futuro é promissor?</em> <br />Dr. Lancha</strong> - Se encararmos as coisas de uma maneira realística, ninguém se mete em uma empreitada como essa de dirigir a Francana. É um desafio só possível de ser vencido com muita vontade. De qualquer forma, um primeiro passo foi dado. Fundamos a Associação Francana de Futebol e Esportes Amadores, que cuidará das categorias de base do clube. <br /></p>
<p><strong><em>Comércio - Nós temos a informação de que jogadores com idades entre 15 e 17 anos não foram federados pelo senhor. Isso não é prejuízo para um clube que planeja revelar jogadores?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Isso foi até este mês porque todo nosso dinheiro estava envolvido com o profissional. A partir de 4 ou 5 de maio, 40 meninos serão federados a um custo de R$ 40 cada um. À medida que obtivermos recursos, mais meninos serão inscritos na Federação. </p>
<p><strong><em>Comércio - É verdade que o senhor pretende antecipar as eleições do clube para novembro deste ano?</em> <br />Dr. Lancha</strong> - Sim. Pensamos em acertar as datas com o início do Paulista e evitar problemas para o sucessor. Quando me elegi (em maio do ano passado), assumi com o Paulista em andamento, quando o correto seria ter eleições em novembro e posse em dezembro. Isso permite ao presidente e seu grupo preparem o time para o torneio. E sou candidato à reeleição. </p>
<p><strong><em>Comércio - Então não está cansado dos problemas?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Não. Quero fazer tudo da melhor forma possível. Não quero entregar um clube arrebentado como recebi. Com jogador na cama sem tratamento médico e a perna quebrada. Não gostaria de ter encontrado o clube com móveis quebrados, geladeira que não funciona e vários outros problemas. </p>
<p><strong><em>Comércio - Diante disso, como o senhor qualifica a administração de seu antecessor José Ari Alves?</em><br />Dr. Lancha</strong> - O ‘Zé’ estava completamente despreparado para assumir qualquer tipo de direção de qualquer coisa. Faltou para ele, primeiro, a visão e, segundo, bons companheiros. Ele foi vítima de uma situação. Quero crer que ele seja uma pessoa bem intencionada, mas totalmente despreparado para exercer qualquer cargo de direção em qualquer lugar. </p>
<p><strong><em>Comércio - Foi um prejuízo para o clube?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Muito grande. Foi uma jogada de uma corrente, chefiada pelo Foguinho (Dalton Amorim), que não quis deixar o Nirlei (vereador Nirlei de Souza), irmão do deputado Gilson de Souza, ser presidente. Então lançaram esse cidadão.</p>
<p><strong><em>Comércio - O senhor definiria isso como egoísmo?</em></strong><br /><strong>Dr. Lancha</strong> - Egoísmo, revanchismo, oportunismo. Essas coisas. <br /></p>
<p><strong><em>Comércio - Dalton Amorim é um símbolo para o clube, mesmo porque já foi jogador, técnico, diretor e presidente do clube. Pelo que o senhor diz, podemos concluir que ele é prejudicial à Francana.</em><br />Dr. Lancha</strong> - Na minha vida, não troquei mais do que uma dúzia de palavras com o Foguinho. Não tenho uma opinião sobre sua pessoa. Agora, suas atitudes são condenáveis. Pelo menos, as que me chegaram às mãos. </p>
<p><strong><em>Comércio - Qual sua maior surpresa?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Essa última ação, baseada em um papel, assinado pelo José Ari, que dizia que a Francana lhe devia R$ 22 mil e que foi praticamente julgada sem defesa. Nós tivemos que fazer um exercício enorme para embargar essa ação e ela ainda está pendente ... </p>
<p><strong><em>Comércio - O senhor acredita ter sido algo orquestrado para prejudicar a Francana?</em> <br />Dr. Lancha</strong> - E acreditar em que mais? </p>
<p><strong><em>Comércio - E os presidentes anteriores?</em><br />Dr. Lancha</strong> - O Gilson de Souza fez uma administração muito boa para o futebol, tanto que a Francana disputou a final do campeonato. Em relação ao João Bonetti ... E o Palocci, hein. (risos) </p>
<p><strong><em>Comércio - Há grandes problemas com a Justiça. As coisas podem ir pelo mesmo caminho?</em> <br />Dr. Lancha</strong> - Pois é. Deixa para lá. O povo de Franca é muito bom. A vida costuma cobrar tudo da gente. </p>
<p><strong><em>Comércio - Sua primeira atitude no clube foi demitir alguns funcionários com dezenas de ano de casa. Por quê?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Pelo perfil dos administradores tratados aqui, você pode perceber o quanto alguns funcionários estavam viciados. </p>
<p><strong><em>Comércio - Posso entender por viciado o seguinte: havia desvio de dinheiro por parte desses profissionais?</em><br />Dr. Lancha</strong> - Não vamos chegar a tanto. É assim: havia pessoas omissas e que não compareciam ao trabalho, que iam e ficavam sentados vendo o tempo passar. De vez em quando levava alguma coisa para casa dizendo que não serviria mais para a Francana.<strong> </strong></p>
<p><strong><em>Comércio - Qual a solução para tudo?<br /></em>Dr. Lancha -</strong> A solução é esquecer o passado. Contratei uma auditoria que está em andamento. Por quê? Não quero brigar, execrar ninguém. Quero meu nome limpo. A auditoria mostrará as mazelas pelas quais o clube passou. </p>
<p><strong><em>Comércio - O senhor não pensa em entrar na Justiça contra ex-dirigentes?<br /></em>Dr. Lancha</strong> - Inicialmente, não penso nisso. Se bem que eventualmente, havendo um caminho judicial para ser trilhado, ele será. Mas nosso espírito não é esse. </p>
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