“Minha vida financeira melhorou muito. Mas, por outro lado, não posso mais sair de casa como saía antes. As pessoas me olham, me apontam. Evito sair”. Assim, Marina, garota de programa de 21 anos, resume o que aconteceu em sua vida desde que passou a fazer programas, há dois anos.
Marina ganha, em média, R$ 6 mil mensais por menos de cinco horas de trabalho diário, tem um carro avaliado em R$ 25 mil, colocou próteses de silicone avaliadas em R$ 6,2 mil nos seios e mora em um bonito apartamento. Mas nem tudo são flores em sua vida: “Me sinto sozinha, não tenho amigas. Sou uma pessoa carente”.
Assim como a francana Marina, muitas mulheres ganham a vida vendendo o próprio corpo na cidade. É uma vida confusa, que mistura uma súbita elevação na capacidade de consumo com o incômodo da discriminação e o medo constante de contrair DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), principalmente a Aids.
“Exijo que meus clientes usem camisinha, mas às vezes estoura e aí...É complicado. São seis meses de agonia até o exame dar negativo”, disse Ellen, 22, há um ano e meio fazendo programas em casas de massagem, referindo-se à janela imunológica, período quando, mesmo com o sangue contaminado, o resultado não acusa a presença do HIV.
Ellen começou a se prostituir quando ficou desempregada. Vinda de Recife para trabalhar em Franca, em companhia de uma amiga, era garçonete em duas pizzarias. Perdeu os dois empregos. Sem ter como pagar aluguel, passou a fazer programas. Mas afirma que, se arrumar outro tipo de trabalho, aceita na hora. “Abro mão do que ganho com isso (R$ 2,5 mil mensais, em média). Compro a roupa que quero, como o que me dá vontade, mas não sou feliz. Acho que ninguém que leve essa vida seja feliz. Dizem que somos de vida fácil, mas de fácil não tem nada”, disse ela, que conta à família, em Pernambuco, que presta serviço como babá.
Ellen mora com outras sete garotas em regime de cooperativa. Elas dividem as despesas da casa de massagens, como faxina, alimentação, luz, água e aluguel. Quando os clientes chegam no local, as garotas se apresentam para que seja escolhida uma (em alguns casos, segundo Ellen, até mais que uma).
Na mesma casa, vive e trabalha Michelle. Hoje garota de programa, foi casada por duas vezes e tem quatro filhos. Atende de segunda a sexta-feira e passa o final de semana com a mãe, em Uberaba, onde vivem seus filhos. Tudo isso, com 24 anos. Ela tem data marcada para deixar a prostituição: “Em três meses. Sairei da ‘vida’ para me casar. Mesmo que tenha de ganhar R$ 500 mensais”. Hoje, ela fatura em torno de R$ 2,5 mil.
Nos 50 minutos que a reportagem permaneceu na casa, pelo menos dez pessoas entraram no local para contratar os serviços das moças. “A maioria é de homens casados e de todas as idades, dos 20 aos 55 anos”, disse Michelle. “A reclamação deles é que as mulheres não lhes dão atenção. Alguns nem querem transar, apenas conversar. Fazemos as vezes de psicóloga”.
Ao contrário do que muitos pensam, a escolaridade das garotas de programa não é baixa. Das seis entrevistadas, apenas uma não concluiu o ensino médio. Três delas pararam os estudos já na universidade. Patrícia, 26, veio de Goiânia para cursar Direito em Franca. Mas parou no terceiro ano, por não ter dinheiro à época. Assim, resolveu fazer programas. “Ganho na faixa de R$ 4 mil (mensais) e consegui juntar um bom dinheiro.Vou ficar nessa vida apenas mais uns dois ou três meses, depois vou embora para terminar a faculadade perto de minha família”, disse.
Na contramão das colegas, Danielly, 22, não vê problemas em ser garota de programa. Com ganhos semanais em torno de R$ 3 mil, ela afirma que, um dia, deixará a prostituição, mas que não tem pressa. “Mantenho meus pais e a mim dessa maneira. Sei que não durará para sempre, por isso guardo dinheiro e me preparo para quando parar. Só não marco data para isso. Acho que sou uma pessoa feliz”. Danielly namora há oito meses com um rapaz que mora em São Paulo, com quem sonha em se casar um dia. Se há ciúmes? “Ele era meu cliente. Sempre soube o que faço. Claro que não gosta, mas acaba aceitando. Quando formos casar, arrumarei outro emprego. Mas não agora”, disse.
GAROTO DE PROGRAMA
Não são apenas mulheres que vivem do sexo em Franca. O escort boy Max, 21, trabalha em uma fábrica de calçados durante todo o dia. À noite faz programas. A rotina começou há três meses, quando o rapaz, que ganha R$ 700 mensais na empresa, decidiu ampliar seus vencimentos.
Segundo o rapaz, são pelo menos dois programas diários, de segunda a sexta-feira, ao valor de R$ 150 cada para mulheres e R$ 250 para homens. São vários os projetos que Max tem para o dinheiro. “Vou trocar de carro e fazer uma poupança, porque sei que isso não dura para sempre”. Sua clientela é, em sua maioria, formada por mulheres e homens solteiros abaixo dos 30.
Max ainda não falou à sua família que faz programas e disse não temer quando for descoberto. “Uma hora vai aparecer a verdade, fazer o que né?”. O garoto só tem um temor: “Pegar aids. Uso camisinha, claro. Mas tenho medo mesmo assim. A cura da doença não tem dinheiro que compre”, disse.
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