Franca - cidade de 300 mil habitantes, no Nordeste do Estado de São Paulo, conhecida pela indústria de calçados - viu renascer o basquete competitivo na temporada 2005/2006. O amor pelo esporte, que tem uma história de quase 50 anos ininterruptos de competições, nunca deixou de existir. Mas o time, que andava em baixa nos últimos anos, longe do pódio - conquistou o último Brasileiro em 1999 e o último Paulista em 2000 -, voltou a liderar o Campeonato Nacional e já está nas quartas-de-final.
Agora, aguarda o adversário que sairá do confronto entre Joinville e Minas Tênis. O terceiro jogo entre eles acontece hoje, às 14 horas.
A competitividade trouxe de volta o apoio da comunidade e reacendeu a paixão adormecida pelo esporte. Não há dúvida de que Franca respira basquete. Basta ir à cidade. Os sinais estão por toda a parte: no ginásio do Póli, nos sócios-torcedores, que pagam para manter o clube (hoje, são 2 mil) e no pool de patrocinadores - puxado pela empresa de calçados Mariner e pela Unimed, que se juntam a parceiros menores, como a Unifran, e o Magazine Luiza. Pelas ruas, nas conversas sobre basquete, no rádio, que transmite os jogos ao vivo - mesmo os que são disputados fora de Franca - e nos cestos de lixo em forma de tabela.
Para a popularidade do basquete também contribui a eterna má fase da Associação Atlética Francana, no futebol. O time, que nasceu em 1912, tem um único título na história, o da segunda divisão do Paulista, em 1977. Este ano, disputando a Série A3, escapou do rebaixamento para a Série B.
A paixão pelo basquete é uma ajuda e tanto, mas insuficiente para manter um time competitivo em tempos de profissionalismo. Um projeto trouxe patrocinadores e parceiros. Além do orçamento para as categorias de base (R$ 320 mil), um time competitivo consome, pelo menos, R$ 140 mil por mês, quase R$ 1,7 milhão por ano, segundo os francanos.
As primeiras lembranças que o armador Helinho, de 30 anos, filho do técnico Hélio Rubens, tem do basquete são dos tempos de mascote, aos 5 anos. “Não me lembro do meu pai jogando, mas de entrar em quadra com o mesmo uniforme, puxado pela mão”.
O mascote foi parar em uma escolinha da cidade até se federar, aos 15 anos, na categoria infantil do Franca. “O professor Pedroca dizia que era importante seguir a tradição de ter francanos no time. Hoje, somos eu, o Fransérgio, o Ricardo, o Demétrius, que não nasceu aqui, mas tem mãe francana, o Vargas que é dominicano, mas se casou com uma francana. E a própria volta do Rogério, que jogou oito anos aqui. Isso traz a comunidade com mais paixão para o ginásio”.
Dos 15 anos de carreira, Helinho passou três no Vasco e dois em Uberlândia. Está casado com uma francana há um ano e quatro meses. Tem seis títulos brasileiros (97,98 e 99, por Franca, 2000 e 2002 pelo Vasco e 2004 por Uberlândia).
Demétrius, de 33 anos, começou aos 8, no Luso, de Bauru, passou pelo Corínthians e chegou a Franca aos 17. Está na décima temporada francana, tem avô e mãe nascidos na cidade - seu pai jogou basquete em Franca. Gosta de futebol, é são-paulino, e de ouvir os jogos da Francana.
Mas acha que o povo prestigia mais o basquete, que tem boa média de público e bom espaço na mídia, por causa dos resultados. “Os moleques jogam basquete. Tem a clínica do Guerrinha, a do Chuí, a Aspa (Associação de Pais e Amigos do Franca BC). O sonho dos meninos é ser jogador de basquete, começam pequenos nas escolinhas, pensando nisso”.
O esporte tem público fiel. “Ficou em crise por uns anos, mas agora que voltou a ter um time competitivo, lotamos o ginásio. Perdemos um jogo na semi do Paulista para Ribeirão; no outro, tinha ainda mais gente no ginásio. Mostra paixão. Além disso, os fãs sabem pressionar o adversário e o juiz”, conta Demétrius.
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