Pensar a Cidade IV


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Embora nosso artigo anterior já se tenha perdido nas brumas do esquecimento e por afazeres domésticos e profissionais ausentei-me da tarefa de escrever, retorno novamente, solicitando permissão ao leitor, para continuarmos tratando de um assunto que a todos interessa. Para refrescar nossa memória: no último artigo levantei certas questões sobre os fatores históricos que poderiam influenciar aquela organização sócioespacial que viria a caracterizar as cidades. Um destes fatores poderia ser percebido naquelas sociedades onde a divisão de classes e a especialização se tornou mais complexa. Um “especialista”, por exemplo, artesão de couro, é alguém ou um grupo que se dedica exclusivamente a essa tarefa, não necessitando trabalhar a terra ou criar animais para seu sustento. Um outro grupo dedica-se a estas atividades de subsistência produzindo para seu consumo e um excedente utilizado para ‘pagar’ os serviços dos “especialistas” dos quais ele também necessita. Parece ser neste contexto de estratificação social e divisão do trabalho que se caracteriza a organização espacial a qual denominamos cidade. Dentro desta perspectiva alguns poderiam perguntar: qual seria a cidade mais antiga do mundo? Uma questão a que muitos pesquisadores se debruçaram, e cada um deles, no afã de apresentar um recorde temporal em relação à cidade a qual consideravam mais antiga jamais chegaram a um consenso. Sob o ponto de vista da pesquisa atual, refiro-me às áreas do conhecimento ligadas à arqueologia, história, e afirmar que um agrupamento urbano, com características de organização social, divisão do trabalho, especialização e organização sóciourbana, pode ser considerado o mais antigo é problemático, porque as pesquisas estão em constantes revisões e os vestígios e fontes daquilo que seriam as mais antigas cidades são poucos e conforme estendemos no tempo eles se tornam cada vez mais raros. Além disto, durante muito tempo a pesquisa tinha uma visão eurocêntrica, privilegiando as culturas da antiguidade clássica e do médio oriente. Mas, para não dizer que estou escamoteando nomes, dentro da perspectiva de uma pesquisa histórico-arqueológica européia, a antiga “Jericó Bíblica” tem sido declarada, desde o século 19, como um espaço sóciourbano, especializado, dos mais antigos do “mundo” (?), seus vestígios foram datados em torno de 7 mil anos a.C. As cidades-Estado caracterizadas como centros políticos e religiosos localizadas no Egito e na Mesopotâmia também estavam entre as consideradas mais antigas. É claro que, em se tratando das experiências urbanas das Américas, Ásia e outras partes da África, havia um silêncio e um desinteresse pelos pesquisadores. Essas regiões eram consideradas selvagens ou exóticas e não poderiam competir com o conceito de civilização que atribuíam à cultura Clássica e a algumas partes do Oriente Médio. Mas, este olhar foi se alterando na medida em que a pesquisa eurocêntrica foi se deslocando para as ‘periferias’ e novos centros de estudos sobre as cidades surgiram. Atualmente, pesquisas sistemáticas têm demonstrado a existência de culturas complexas e antigas em todo lugar do globo. E, por conseguinte, experiências de organização sóciourbana têm sido encontradas em diversos lugares. Poderíamos citar, como exemplo, as cidades localizadas junto ao Planalto Andino, na América do Sul, onde uma complexa organização espacial se adaptava às dificuldades do relevo e as suas diferentes formas de apropriar o espaço demonstrava uma cultura altamente especializada. No Brasil, tem havido uma nova abordagem em relação, por exemplo, ao povoamento da Amazônia no período pré-colonial, antes considerada como uma região de migração das culturas andinas em decadência, atualmente, tem se descoberto que são culturas autônomas com características de especialização e grandes e complexos assentamentos humanos. Creio que, hoje, diante dos graves problemas que nossas cidades têm enfrentado pensar as cidades sob a perspectiva de sua história, antes de ser uma satisfação às nossas curiosidades sobre o passado remoto, deveria levar-nos a um olhar mais profundo e abrangente, ajudando-nos a compreender as dificuldades, conquistas, limites e esperanças das sociedades humanas inseridas num processo de transformação espaço-temporal evidenciado nas cidades de forma mais complexa. MARCELO PINI PRESTES é arquiteto, arqueólogo, pesquisador da MAE-USP (Universidade de São Paulo) e membro do Conselho de Leitores do Comércio da Franca.

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