Os resultados decepcionantes nas avaliações nacionais e estrangeiras que medem o desempenho de estudantes brasileiros em suas capacidades de leitura e de escrita estão levando as autoridades do MEC (Ministério da Educação e Cultura) a uma reorientação de métodos e a uma possível mudança. A notícia, estampada no último número da revista Veja, chega como um sinal de esperança para pais de alunos da rede pública de ensino e para aqueles que têm coragem de questionar o atual modelo de alfabetização.
Não sei qual é o motivo que orienta a reação áspera e azeda das chefias de ensino, do âmbito federal ao municipal, quando se critica, com números nas mãos, o resultado catastrófico do Modelo Construtivista no processo de alfabetização. A resposta a qualquer crítica é tão veemente, que a notícia divulgada pelo Comércio da Franca, nas suas edições dos dias 18 e 19, segundo a qual um aluno de sétima série de uma escola local não sabe ler nem escrever, sequer consegue copiar o que está na lousa, causou respostas arrevezadas e posicionamentos no mínimo estranhos, de alguns profissionais da área, inconformados com o “vazamento da notícia”. A impressão que se teve, nos bastidores da reportagem de Paulo Godoy, foi a de que alguns educadores consideravam que o jornal estava agindo contra a escola pública. É inacreditável que se tente maquiar a realidade a esse ponto, buscando nomear o inexplicável. É perturbador que não se reúna coragem para reconhecer erros.
Com números e argumentos, a repórter Mônica Weinberg mostra nas páginas 116 e seguintes de Veja que somos um País de iletrados: ficamos em último lugar numa avaliação que mediu a capacidade de leitura em 32 países; 32% de nossos alunos da rede pública não conseguem passar para o segundo ano do ensino fundamental; 55% dos estudantes da quarta série não compreendem a idéia principal de um texto simples. Outra pesquisa conduzida pela Fundação Montenegro/Ibope concluiu que 30% da população brasileira é semi-analfabeta (com perdão para o uso do semi, essa partícula que define nada, até frango no Brasil virou semi-caipira). Entendam-se por semi-alfabetizadas pessoas que sabem: assinar o nome, ler cartazes com letras bem grandes e manchetes de jornais e revistas, anotar um número de telefone. Convenhamos que é bem pífio resultado para governos que vêm há pelo menos duas décadas gastando milhões em projetos educacionais.
Erram os que querem tapar o sol com a peneira, os que têm medo de questionar, os que fingem que está tudo certo. Não está. Em artigo publicado há algumas semanas no jornal Folha de S. Paulo, o articulista Clóvis Rossi bradava: “Devolvam a minha escola!” Ele se referia à escola pública onde estudou nos anos 60, aquela onde se alfabetizou e deu a ele condições de exercer o jornalismo corajoso que já o tornou um dos maiores profissionais da área no Brasil. Tive vontade de fazer coro: “Devolvam logo, enquanto ainda há tempo de corrigir o rumo dessa nau que periga naufragar”.
A notícia de Veja acena para uma possibilidade de mudança de rota. Sabe-se agora que o problema está preocupando o Ministério.
E a exemplo do que já ocorreu nos Estados Unidos e na França, há grandes chances de um regresso ao tradicional método de alfabetização, aquele da nossa velha cartilha (alguém não se lembrará com saudades da Caminho Suave?). Americanos e franceses que se basearam em pesquisas que compravaram ser o Método Fônico o mais eficaz, voltaram atrás. O Brasil, entretanto, preferiu, até aqui, seguir com o México, o Peru e a Argentina, insistindo no Modelo Construtivista, que parte do todo para a parte, da frase para a palavra, da palavra para a sílaba. Ele pode funcionar muito bem nas escolas particulares, onde o perfil do estudante difere drasticamente daquele do aluno da rede pública.
Mas é nesse aluno que o governo tem de focar, salvando-o do desastre que já começa a se desenhar: apenas 2 de cada 10 brasileiros dominam a leitura e a escrita. É preciso dizer mais alguma coisa?
SÔNIA MACHIAVELLI CORRÊA NEVES é jornalista, escritora e presidente do Conselho de Administração do Comércio da Franca. Alfabetizou crianças e adultos durante dez anos.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.