Pelo menos 1,2 mil pessoas podem ficar sem atendimento médico contínuo e emergencial em Franca e região por conta da greve dos funcionários da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), iniciada há mais de dois meses. Com a paralisação, medicamentos importados não obtêm licença para entrar no País e os hospitais trabalham apenas com o que têm no estoque. Pacientes com câncer, problemas ortopédicos, insuficiência renal e até vítimas de infarto podem ser prejudicados.
Na Fundação Casa de Misericórdia de Franca, responsável pela administração da Santa Casa e dos Hospitais do Coração e do Câncer, a situação é preocupante. O diretor técnico da instituição, Edson Alves Margarido, prevê que, se a greve não acabar, em duas semanas os medicamentos começarão a faltar.
Os primeiros prejudicados poderão ser pacientes do Hospital do Câncer que passam por tratamento quimioterápico. Hoje, mais de 600 pessoas, entre crianças e adultos, dependem do procedimento. “Dependemos, com a greve, de nossos estoques próprios e das distribuidoras. Em um prazo de duas a três semanas poderemos ter problemas”, disse Margarido.
De certa forma, a greve da Anvisa já atinge o Hospital do Câncer.
Um bom exemplo é o medicamento Metotrexato. Importado da Austrália, ele é comprado em embalagens de 50 mg. Como essas não estão sendo encontradas nas distribuidoras, a solução tem sido aproveitar a de 500 mg em doses fracionadas. Se não for utilizado em até três semanas, o restante de remédio tem de ir para o lixo.
No Hospital do Coração, a maior preocupação é com as vítimas de infarto agudo do miocárdio. O procedimento, nesse caso, é a imediata realização de uma angioplastia. Mas, com a falta de cateteres, balões e stents, todos importados e sem similares nacionais, a cirurgia não pode ser feita e o paciente pode ficar com seqüelas e até morrer. “Com a angioplastia, o paciente tem prejuízo mínimo ou nenhum ao coração. Sem condições de fazê-la, vamos retroceder 30 anos na medicina e tratar do paciente com medicamentos e medidas que não resolverão o problema”, disse Margarido, que acrescentou: “São de 25 a 30 infartados atendidos por mês”.
HEMODIÁLISE
Pessoas dependentes de hemodiálise também poderão ficar sem atendimento por causa da possível falta de equipamentos importados para filtrar o sangue dos pacientes. Sem eles, 200 ficarão sem atendimento. “O estoque da Santa Casa dará para mais algumas semanas, mas, se não houver solução, os tratamentos terão de ser interrompidos”, disse Margarido.
Unimed e Regional não realizam hemodiálise em seus hospitais. O serviço é terceirizado justamente para a Santa Casa e para a Clínica de Nefrologia de Franca, que também atende encaminhamentos do SUS, mas não tem estrutura para atender toda a demanda. “Hoje, temos 72 pacientes, 90% deles vindos do SUS (Sistema Único de Saúde). Mas estamos praticamente no limite. Temos medicamentos, mas nosso espaço físico é limitado”, disse a enfermeira responsável Celimara de Castro.
Outra especialidade que poderá ficar comprometida será a ortopedia. As próteses especiais, como as que são utilizadas para joelho e quadril, são importadas e não encontram semelhantes no País.
Apesar da gravidade da situação, Margarido disse que permanece confiante na breve resolução do problema e pede para que não haja desespero entre os pacientes. “As distribuidoras já entraram na Justiça para liberar o que chegou ao País e está na alfândega.
Creio que os pacientes não serão prejudicados”, disse o médico, que completou: “Nunca vi isso acontecer. Em outros países seria uma situação impossível, pois greve na Saúde é proibida por lei”.
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