Um milhão para não dizer a verdade


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Esse era o valor que seria “presenteado” a um cidadão brasileiro que preenchesse os seguintes requisitos: 1) Fosse funcionário da Caixa Econômica Federal; 2) Fosse homem de confiança do governo federal e 3) Assumisse a culpa sobre a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. A primeira exigência seria indispensável, posto que impossível a um cidadão comum ter acesso a dados bancários de um correntista; deveria, portanto, obrigatoriamente, ser funcionário do banco. Poderia se discutir, nesse caso, a exigência de um cargo mínimo de caixa, posto que um escriturário ou office-boy não poderia ter acesso aos dados sigilosos. Superada a primeira exigência, poderíamos até acreditar que por um milhão qualquer brasileiro se tornasse simpatizante do PT, afinal muitos não votaram acreditando na esperança? O problema foi a terceira exigência. Assumir a culpa por ter quebrado o sigilo bancário de uma pessoa, e ainda mais um caseiro que estava acusando o ex-ministro Palocci de freqüentar a mal-assombrada ‘Casa do lago Ness’. Bom, aí que a coisa se complicou, posto que esse cidadão deveria aceitar assumir integralmente a culpa sobre o episódio. Não ficaria só nisso, ele seria sabatinado e pressionado e teria que dizer que fez tudo sozinho, que seus superiores de nada sabiam, e, mais ainda, deveria confirmar que em nenhuma hipótese foi pressionado a fornecer os dados sigilosos, apenas o teria feito por amar o ex-ministro e por acreditar que estaria desmascarando um criminoso que ousou contra seu ídolo. Existe um jargão conhecido como modus operandi, que seria nada mais do que a forma como uma atividade é realizada. Numa tradução literal do latim, seria o modo de operar ou o jeito de fazer uma determinada coisa. Usa-se esse termo para determinar algumas características semelhantes entre condutas humanas. Por exemplo, o modus operandi de uma quadrilha de roubos de carro na maneira de abordar a vítima, horário, número de pessoas envolvidas, etc. Apenas por semelhança ou, como dizem, qualquer semelhança é mera coincidência, me lembrei do Delúbio Soares, aquele tesoureiro do PT que assumiu a culpa pela utilização de “dinheiro não contabilizado” na campanha eleitoral do Lula. Aplicando a máxima, pergunto: quanto será que o Delúbio Soares levou para assumir a culpa sozinho? Se estavam dispostos, segundo a Revista Veja, a pagar um milhão de reais a um brasileiro bem intencionado que assumisse a culpa pela quebra do sigilo do caseiro, quanto estariam dispostos a pagar ao Delúbio para assumir que fez tudo sozinho no caso do caixa 2 do PT? A gravidade dos atos não pode levar a crer que é um simples caso de dinheiro não contabilizado, até mesmo porque foi absurdamente assumido publicamente pelo próprio presidente Lula, e, pior, durante sua estada na França, exatamente o país de onde dizem ter surgido a máxima: O Brasil não é um País sério, segundo alguns atribuída a Charles De Gaulle e segundo outros atribuída ao resto dos cidadãos franceses e alguns brasileiros espalhados pelo resto do mundo. O fato é só um: a roubalheira nesse País está ultrapassando os limites do bom senso, se é que se pode ter bom senso quando se fala em roubalheira. Não se pode aceitar que um governo seja acusado de tantas ilegalidades e nada aconteça. O Ministério Público fez sua parte ao denunciar 40 envolvidos no escândalo do mensalão, já ao restante dos brasileiros resta a tarefa de expurgar esses malfeitores das entranhas governamentais. Agora o que eu não entendo é essa atração de milhões de brasileiros pela bandidagem, pois só com esse amor pelo desonesto é que poderíamos justificar as pesquisas dando conta de que Lula será reeleito. Ou isso ou estamos diante de uma massa de analfabetos que, embora alguns saibam escrever o nome, não conseguem entender o que ocorre ao seu redor. PAULO HUMBERTO FERNANDES BIZERRA é advogado

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